Durante anos, o 5G foi apresentado como a próxima grande revolução tecnológica. Mais velocidade, menos latência, melhor estabilidade e uma nova geração de serviços digitais.
Mas afinal, Portugal ainda está longe desse cenário.
Segundo dados recentes divulgados pela ANACOM, apenas cerca de 30% da infraestrutura nacional está preparada para 5G standalone (SA), a arquitetura considerada essencial para o verdadeiro 5G de alta performance.
Na prática, isto significa que grande parte da rede atualmente utilizada pelos portugueses continua dependente da infraestrutura 4G.
A diferença é tão significativa que até o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, acabou por reconhecer o problema: “Hoje dizemos que temos 5G em Portugal. Não o temos”, afirmou recentemente, no âmbito do encerramento da apresentação do Centro de Excelência para a Inovação da Mastercard, em Lisboa.
O 5G que existe… ainda depende do 4G
A maioria das redes atuais funciona em modo ‘non-standalone’ (NSA), uma solução intermédia que utiliza antenas 5G, mas continua ligada ao núcleo tecnológico do 4G.
Para o utilizador comum, isso é praticamente invisível. O smartphone mostra ‘5G’, a internet pode parecer mais rápida e a perceção é de acesso à tecnologia mais avançada do mercado.
Mas há um detalhe importante: muitas das capacidades prometidas para o 5G simplesmente ainda não existem em larga escala em Portugal.
O verdadeiro salto tecnológico só acontece com o 5G standalone:
-
latência ultra-reduzida;
-
comunicações em tempo real;
-
automação industrial;
-
cloud gaming avançado;
-
redes inteligentes;
-
aplicações críticas para empresas e cidades.
Sem SA, o 5G funciona, sobretudo, como uma evolução mais rápida do 4G, não como a revolução vendida ao consumidor.
Muito marketing, pouca explicação
O problema é que esta diferença raramente é explicada de forma clara.
As operadoras comercializam tarifários 5G há vários anos, usam a tecnologia como argumento premium e anunciam cobertura praticamente nacional. Mas para a maioria dos consumidores, ‘ter 5G’ significa automaticamente ter acesso à experiência completa da nova geração móvel.
E é precisamente aí que começa a polémica.
Porque tecnicamente as operadoras não estão erradas quando dizem que oferecem 5G. Mas também é verdade que a infraestrutura mais avançada, aquela que permite cumprir as grandes promessas da tecnologia, continua bastante limitada.
Então, estamos a pagar por algo que ainda não temos?
A questão começa agora a ganhar força.
O mercado habituou os consumidores à ideia de que Portugal já entrou plenamente na era do 5G. No entanto, os números mostram uma realidade bastante diferente daquela que foi transmitida nos últimos anos.
Ao admitir publicamente que “não temos” verdadeiramente 5G, Miguel Pinto Luz acaba por validar uma dúvida que muitos especialistas já levantavam: o marketing avançou mais depressa do que a infraestrutura.
E enquanto o verdadeiro 5G standalone não chega à maioria da rede nacional, milhões de portugueses continuam a pagar por uma tecnologia cuja versão mais avançada ainda está longe de estar disponível.
