Durante anos, se algo acontecia no mundo, o Twitter era o primeiro a saber. Antes do Facebook, antes do Instagram. Política, futebol, tecnologia, memes. Tudo passava por ali. Era a praça pública onde a informação de juntava. Um reino que parecia inabalável.
Hoje, o X, nome adotado depois da reestruturação liderada por Elon Musk, já não tem o mesmo peso simbólico nem estratégico. Não desapareceu, pois continua com centenas de milhões de utilizadores ativos por mês. Ainda funciona como um aglomerado de informação em tempo real. Mas deixou de ser o ponto de encontro inevitável que outrora seria e deixou de ser tão relevante — e, muitas vezes, ligado a escândalos online.
Mas porquê?
A sobrevivência de um gigante
Os números mostram uma plataforma que resiste, mas sem o brilho de outros tempos. A base de utilizadores continua grande. No entanto, houve rotatividade, perda de patrocinadores e promotores e uma quebra acentuada na valorização da empresa desde a compra por Musk.
A confiança do mercado não é a mesma. Há relatos de uma grande dívida, pressão financeira e fuga de marcas. Muitas empresas reduziram investimento publicitário. Outras simplesmente saíram.
A transformação de Twitter para X não foi apenas a morte do passarinho. A ambição passou a ser criar algo maior do que uma rede social. Um ecossistema alargado a tudo e mais alguma coisa. Uma espécie de plataforma que reside em vários círculos. A execução, porém, tem sido estranha.
Mudanças frequentes nas regras, alterações na verificação de contas, decisões controversas de moderação e reinstalação de perfis banidos criaram instabilidade, o que por sua vez, originou falta de confiança na rede por parte do público e a disseminação de todo o tipo conteúdo.
O lixo de um é o tesouro de outro
Quando um gigante abana, o mercado reage. E, de facto, reagiu. E que ventos fortes, foram estes.
O Threads, da Meta, não perdeu tempo quando notou as primeiras fragilidades do X e entrou rapidamente na conversa. Beneficiou da integração direta com o Instagram, o que facilitou a migração de utilizadores. Criar conta é simples. Levas contigo os teus seguidores. O ambiente é mais controlado. A moderação é mais previsível.
O Threads vive dentro do ecossistema da Meta. Isso significa integração com Instagram, potencial ligação ao Facebook e uma base já instalada. Para criadores e marcas, faz sentido estar onde já está o público.
Em termos de conteúdo, muitos utilizadores apontam uma experiência menos tóxica e mais organizada. O algoritmo privilegia conversas e perfis relevantes dentro da tua rede e, embora não seja perfeito, transmite maior estabilidade. Portugal tem vindo cada vez mais a aderir a esta plataforma, em contraste com o X.
Depois há a Bluesky, um projeto associado ao fundador original do Twitter. Esta é uma proposta de rede social muito diferente do que tem visto até agora. Uma rede descentralizada, com maior controlo do utilizador sobre o feed e a moderação. Cresceu precisamente junto de quem queria afastar-se das mudanças impostas por Musk.
E não, não é uma rede de nicho. mas sim uma rede que está em crescimento. Instituições começaram a marcar posição. O Banco de Portugal, por exemplo, já inaugurou a sua presença no Bluesky. Outras entidades optaram por abandonar o X em protesto contra as novas orientações da plataforma.
Também o europeu Mastodon continua a captar utilizadores que valorizam estruturas descentralizadas e servidores independentes. A experiência é menos massificada, mas mais controlada por comunidades.
E não são as únicas. Plataformas como Spill, Post News ou mesmo comunidades reforçadas no Reddit beneficiaram da dispersão.
Marcas e instituições estão a votar com os pés
Quando marcas e organismos públicos mudam de plataforma, não é por acaso. É, sem dúvida, uma decisão estratégica.
Algumas empresas suspenderam campanhas no X após polémicas relacionadas com conteúdos extremistas ou declarações controversas de Musk. Outras eliminaram definitivamente os seus perfis. Não por falta de audiência, mas por risco reputacional.
Para uma marca, estar numa plataforma percecionada como instável pode custar caro. O contexto importa, logo a associação a ela também.
Threads tem uma vantagem difícil de ignorar
O Threads pode não ter reinventado o formato, mas fez algo mais pragmático: aproveitou a infraestrutura da Meta.
Ou seja, aproveitou a integração com sistemas de publicidade já consolidados, ferramentas de gestão de comunidade que as marcas conhecem e um ecossistema já construido e, já agora, robusto. Tinha tudo para resultar: desde o contexto às falhas do X. Tudo isto ofereceu espaço para a capacidade de escalar rapidamente.
Para criadores de conteúdo, isso traduz-se em maior previsibilidade. Para utilizadores comuns, significa encontrar amigos e criadores já conhecidos sem começar do zero.
Enquanto o X tenta redefinir-se como algo mais vasto, e que se atira para todas as direções, o Threads posiciona-se como uma evolução natural do microblogging dentro de um ambiente familiar.
O problema de identidade do X
O X não está morto. Continua a dar cartas em eventos em direto (especialmente nos Estados Unidos). Continua a ser usado por jornalistas, políticos, líderes tecnológicos. Mas perdeu universalidade. Antes, quem queria participar na conversa global estava no Twitter. Hoje, a conversa está espalhada por várias redes.
A mudança de nome, a aposta numa visão mais ampla e as decisões polémicas criaram uma rutura que nem a história do famoso Twitter conseguiu aguentar. Alguns utilizadores ficaram. Outros dispersaram.
Há também uma questão de confiança. Mudanças rápidas nas políticas de moderação e na gestão de contas verificadas afetaram a perceção de credibilidade. Para uma plataforma que vive de informação em tempo real, isto foi uma abalo como nunca tinha acontecido antes na rede.
A cisão do online
O cenário atual é mais dividido. Não existe uma única praça digital que domine o online. Agora existem várias.
O Threads para quem quer proximidade ao universo Meta. Bluesky para quem procura descentralização com ADN semelhante ao Twitter original. Mastodon para comunidades mais autónomas sem depender da centralidade de uma só empresa. X para quem continua a valorizar a escala e a velocidade do fluxo informativo, com alguns compromissos (que para muitos são a gota de água).
Para nós, utilizadores, isso significa fazer uma escolha, e também dispersão. Já não basta estar numa única rede para acompanhar tudo. A atenção divide-se tanto como as audiências.
O futuro não está escrito na pedra
O X ainda tem dimensão suficiente para continuar a respirar, pelo menos. Uma base de centenas de milhões de utilizadores não desaparece de um dia para o outro. Mas já não é incontornável.
A ascensão de alternativas mostra que o mercado não tolera instabilidade. Quando a confiança vacila, existem outras peças no tabuleiro desejosas de aproveitar o momento para entrar em campo. No fim, a pergunta é se o X vai conseguir recuperar tudo o que perdeu, ou será que as novas redes vão manter o pé firme?
Neste momento, tudo indica que a era de um hub único terminou. E que o futuro das redes sociais será mais distribuído, mais competitivo e menos previsível.
Para ti, isso pode ser uma oportunidade. Experimentar. Comparar. Escolher onde queres realmente estar e onde queres pertencer. Eu cá, já fiz as minhas escolhas.
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