Dizem-nos há anos que o progresso tecnológico é uma linha reta. Mais ecrã. Mais apps. Mais notificações. Mais integração. Se algo pode ser digitalizado, será. Se pode ser acelerado, melhor ainda.
E, no entanto, uma parte da geração que cresceu com Wi-Fi no berço está a fazer o caminho inverso. Telemóveis concha. Leitores de música offline. Câmaras digitais. Máquinas de escrever. Smartphones minimalistas. Parece que isto está a ser uma tendência cada vez mais óbvia nas ruas, visível nas plataformas sociais, nos mercados de usados e nas lojas de recondicionados — e mundialmente.
A promessa da indústria vs. a experiência da vida real
Durante anos, a indústria repetiu que a inovação era inseparável da conectividade. Que o smartphone era o centro da vida moderna. Que tudo devia convergir para um único dispositivo sempre ligado. A promessa era eficiência. Conveniência. Personalização.
Mas o que está a acontecer mostra outra coisa.
Há cada vez mais pessoas a abandonar smartphones por feature phones. Não porque não saibam usar tecnologia. Muito pelo contrário. Sabem demasiado bem como funciona. Sabem como as notificações são feitas para interromper. Como os feeds são estruturados para prender. Como a atenção é o produto (e o preço extra que se paga).
Segundo os que trocaram o "smart" pelo "feature", as razões passam pela ansiedade e pela fadiga. Pela dificuldade em concentrar-se, pela incapacidade para estar presente sem olhar para o ecrã.
O amor é pela tecnologia, não pelo modelo
Alguns deixam o smartphone em casa e usam-no apenas para o essencial. Outros compram modelos com ecrãs muito pequenos que tornam o scroll desconfortável. Há quem volte a leitores de música (como o leitor mp3, mp4 ou os antigos iPods) para evitar subscrições e algoritmos. E já começa a haver cada vez mais pais que adiam ao máximo a entrega de um smartphone aos filhos.
Isto não me parece uma recusa por completo da tecnologia, mas uma recusa de um certo modelo de tecnologia.
A indústria beneficiou enormemente da economia da atenção. Plataformas lucram com tempo de ecrã. Fabricantes vendem aparelhos cada vez mais caros que funcionam como portas de entrada para serviços por subscrição. Os dados pessoais são o alimento de sistemas de publicidade. O ciclo fecha-se com atualizações anuais e hardware "unibody" que incentiva a substituição.
Quando alguém opta por um telemóvel simples, sai parcialmente deste ciclo. Sem feeds, sem notificações, sem recolha de dados. E eu percebo o porquê! É uma fuga, ainda que parcial, a um sistema otimizado para retenção.
Será isto nostalgia ou um sintoma a dar de si?
Claro, que não podemos ignorar o fator estético. A nostalgia dos anos 2000 tem peso e é incrível. Flip phones tornaram-se populares no TikTok. Câmaras digitais e Polaroids voltaram a circular entre os mais novos que apreciam a textura da imagem — talvez porque a espera entre capturar e ver a fotografia crie antecipação e valor.
Mas reduzir tudo a moda seria simplista e injusto. A verdade tem tudo a ver o cansaço e a pressão do online e com os preços absurdos a que os telemóveis estã.
O mercado dos recondicionados está a crescer. Equipamentos antigos ganham nova vida. Leitores MP3, iPods e consolas vintage voltam a ser procurados. Em alguns casos, os preços até sobem, o que mostra esta procura.
Existe também uma consciência ambiental. O lixo eletrónico é o fluxo de resíduos sólidos que mais cresce no mundo. Aparelhos descartados contêm materiais tóxicos. Substituir menos e prolongar a vida útil vai para além da poupança e começa a ser mais ambientalmente consciente.
O regresso inesperado do teclado físico
Se existe algo que me surpreendeu (tecnologicamente) no último ano, foi o regresso do teclado físico. Durante anos, acreditou-se que o teclado físico morreu com a queda da BlackBerry. O ecrã tátil tinha vencido a árdua batalha. Mas afinal...
Agora surgem sinais de procura por aparelhos com teclado físico integrado. Alguns fabricantes até já lançam smartphones que combinam teclado físico com ecrã tátil. Claro que estes ainda estão longe de dominar o mercado, mas existem. E encontram público.
O toque físico, o feedback mecânico e a escrita com atalhos, ganham agora um valor renovado. Um teclado físico impõe ritmo, reduz alternância entre apps, cria foco. Num universo de superfícies lisas e alertas a toda a hora, o clique de uma tecla torna-se quase um ato de resistência.
Um mercado que pode dividir-se
O mercado pode começar a dividir-se. De um lado, dispositivos cada vez mais poderosos e integrados em ecossistemas. Do outro, equipamentos minimalistas, focados em poucas funções, criados para limitar. A narrativa dominante sugere que este movimento é passageiro. Pode ser. Mas ninguém sabe o futuro. Afinal, quem o constrói são pessoas. Há 10 ou 15 anos, quem diria que os flip phones iria regressar (embora com touch screen e sem dobras)? Até eu penso em trocar o meu iPhone por um.
Já há muito tempo que crescemos com smartphones. E pandemia intensificou o uso de ecrãs para tudo, desde lazer a trabalho, e os hábitos demoram a passar. Ao optar por um “dumbphone”, a mensagem não é que renegamos a tecnologia, mas mais uma tentativa de recuperar o controlo que outrora tínhamos.
Mas nós somos seres contraditórios por natureza
Grande parte desta tendência é amplificada nas próprias plataformas que se criticam. O discurso de detox digital circula online. Existe aqui também imensa performance, baseada na estética.
Também existem limitações que, por mais que muitos de nós queiramos ignorar, torna-se impossível na vida adulta. Os smartphones concentram pagamentos, autenticação, navegação, trabalho. Nem todos podem abdicar destas ferramentas. Além de que para alguns, comprar um segundo dispositivo minimalista é opção. Para outros, optar por um recondicionado é uma necessidade.
Aprende porque a Gen Z não dura para sempre
A indústria começa a adaptar-se. Marcas minimalistas ganham visibilidade. Modelos relançados encontram procura. Startups criam dispositivos com funcionalidades reduzidas: isto é o mercado a tomar um rumo natural.
Ainda assim, a crítica central mantém-se. O smartphone dominante foi criado para catalisar o envolvimento entre as pessoas, a realidade e as empresas. Cada scroll é medido. Cada interação é analisada.
Quando uma geração decide reduzir esse ciclo, está a questionar a própria essência do digital hoje em dia, e as empresas não estão nada contentes com isso.
É quase poético. A geração acusada de viver colada ao ecrã é a mesma que começa a redefinir essa relação. Trocar um topo de gama por um outro que não é topo de gama é um gesto simbólico. Comprar e usar um feature phone e uma câmara digital em vez de usar a app é deliberado e como enfrentar o mundo em "offline mode". E voltar a um teclado físico mostra que o progresso não é inevitavelmente acumulativo.
Inovar também pode significar remover. Simplificar. Impor limites. Talvez a tecnologia do futuro não seja apenas mais rápida e mais integrada. Talvez seja também mais consciente. Claro que podemos apenas não usar tantas apps e diminuir o nosso tempo ao ecrã conscientemente, mas poder voltar a usar um flip phone, nem que seja de vez em quando, em 2026? O fogo queima e o céu é azul? Obviamente que quero!
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