
Ver os traços de rede desaparecerem mal entras num centro comercial, numa garagem ou na sala de tua casa não é imaginação tua nem defeito do teu telemóvel. Depois de a DIGI ter admitido que pode abandonar o país e de a MEO, NOS e Vodafone terem alertado para o caos nas telecomunicações, a verdade sobre o sinal da nova operadora veio a público num dossiê entregue à ANACOM.
O bloqueio tem raízes na física das telecomunicações. As chamadas faixas baixas (abaixo de 1 GHz) são as únicas com capacidade para furar o betão e manter a cobertura no interior dos edifícios. Em Portugal, a divisão destas frequências não é, de todo, equitativa.
MEO, NOS e Vodafone controlam 94,4% de todo o espectro abaixo de 1 GHz
A MEO, a NOS e a Vodafone controlam em conjunto 94,4% de todo o espectro abaixo de 1 GHz em funcionamento. A DIGI ficou reduzida a 10 MHz nos 900 MHz (e zero MHz nas bandas dos 700 e 800 MHz). Na prática, detém uns simples 5,6% do espectro que fura paredes.
Nas faixas de dados essenciais para navegar na internet a alta velocidade (1800, 2100 e 2600 MHz), a quota da operadora fixa-se em apenas 12%.
O esforço inglório das antenas e o alerta europeu
Para combater este vazio de sinal, a operadora romena tem sido obrigada a fazer o impossível na rua. Os registos oficiais mostram que a empresa instala 437,6 estações base por cada MHz que possui nas faixas baixas, um volume 4,39 vezes superior à média das três concorrentes tradicionais (que se ficam pelas 99,7 antenas).
No entanto, espalhar antenas pelas ruas não basta quando as ondas de rádio não conseguem penetrar os edifícios. A consultora internacional Rewheel confirma que "sem espetro abaixo de 1 GHz, ou com espetro insuficiente, a DIGI constrói redes com cobertura inferior no exterior e no interior profundo dos edifícios".
Sem acordos equilibrados de partilha ou de roaming nacional para usar as antenas dos rivais, as zonas de sombra tornam-se inevitáveis, o que já levou milhares de utilizadores a assinarem uma petição pública para exigir regras justas na ANACOM.
O preço da concorrência e o plano até 2042
Esta desvantagem de sinal surge numa altura em que a presença da DIGI em Portugal já se faz sentir na carteira de todos nós. No primeiro ano completo de operação, a receita média por cliente móvel desceu 4,8% e, em agosto de 2026, os preços das telecomunicações no país registaram uma queda homóloga de 4,3%, a maior descida de toda a União Europeia.
Segundo a Lisbon Economics, esse alívio mensal corre risco real de evaporar se a ANACOM renovar diretamente 467 MHz à MEO, NOS e Vodafone até 2042 sem realizar novo leilão. A empresa pede agora que o regulador liberte o bloco de 700 MHz que continua por atribuir para duplicar a sua capacidade dentro de casa e obrigue as concorrentes a aceitar condições viáveis de partilha de rede. A decisão final está prestes a sair.
Podes ler a minha experiência de um ano e meio com a fibra da DIGI e o meu regresso recente à rede móvel da operadora.