Esta semana fui a Amesterdão e é difícil não notar (para além das bicicletas) na quantidade de carregadores de carros elétricos em zonas residenciais nos passeios. São milhares de pontos de carregamento elétrico, integrados na paisagem urbana com uma naturalidade que faz a nossa realidade em Lisboa ou no Porto parecer, no mínimo, ridícula.
Para quem vive num prédio antigo, sem garagem, e sente que a mobilidade elétrica é um clube privado para donos de vivendas ou de prédios com garagem, o modelo holandês é a única solução viável se o caminho for de facto seguir a mobilidade elétrica total como a UE pretende.
O modelo de Amesterdão: dados e realidade
Amesterdão não se tornou a capital europeia da mobilidade elétrica à toa. Se compras um carro elétrico e não tens onde o carregar em casa, a cidade instala um posto perto de ti.
- Em 2026, a rede pública da Holanda ultrapassou os 209 000 pontos de carregamento. Só em Amesterdão, existem cerca de 16 000 carregadores, com o objetivo ambicioso de chegar aos 80 000 até 2030.
- Obviamente que também há carregadores rápidos de 150 kW e mais. Mas nestes de passeio falamos de carregamento lento (AC), geralmente entre 11 kW e 22 kW. É o carregamento de "conveniência": chegas ao final do dia, ligas o carro ao lado de casa e, de manhã, a bateria está cheia.
- A cidade utiliza uma rede inteligente que ajusta a velocidade. Entre as 18h e as 21h (pico de consumo doméstico), a potência baixa ligeiramente; durante a madrugada, quando a rede está folgada, a velocidade sobe.
Portugal: das "puxadas" pela janela à falta de aposta municipal
Em Portugal, o cenário é o oposto. Quem arrisca no elétrico sem garagem tem de se preparar para alguma logística. O que vemos muito é cabos pendurados do terceiro andar, extensões a atravessar passeios, uma ilegalidade perigosa que nasce da necessidade e da falta de infraestrutura.
Pode um cidadão pedir um carregador de rua em Lisboa? Legalmente, o licenciamento de postos em domínio municipal (via pública) existe, mas está focado em operadores (OPC) e não no pedido direto do residente, como acontece em Amesterdão através do portal Laadpaal aanvragen. Em Lisboa, a EMEL tem expandido a rede, mas de forma centralizada e muitas vezes insuficiente para a densidade populacional das zonas históricas.
Como aplicar isto cá?
Para cidades como Lisboa, onde bairros como Alvalade, Arroios ou a Estrela estão repletos de prédios sem garagem, a solução "à Amesterdão" exige três passos:
- O "direito ao carregamento": seria uma legislação municipal que obrigue a autarquia ou parceiros a instalar um ponto de carregamento num raio de 200 metros da residência de quem prova ter um VE e não tem garagem, como acontece em Amesterdão;
- Aproveitamento do mobiliário urbano: não precisamos de carregadores gigantes no passeio. Amesterdão usa postes de iluminação adaptados e unidades compactas. Lisboa poderia converter os seus milhares de parquímetros e candeeiros em pontos de 3,7 kW ou 7,4 kW;
- Tarifas noturnas: incentivar o carregamento lento noturno com taxas reduzidas, alivia a pressão sobre a rede e garante que o lugar de estacionamento cumpre uma dupla função.
A mobilidade elétrica em Portugal só sairá deste nicho onde se encontra quando carregar um carro for tão banal como estacioná-lo. Enquanto continuarmos a tratar o carregamento de rua como uma exceção e não como a norma para quem vive em prédios sem garagem, continuaremos a ver fios pendurados pelas janelas. É por esta mesma razão que ainda não apostei em carro elétrico.
