O diagnóstico é simples: os incentivos do Fundo Ambiental esgotam em horas, mas estão quase exclusivamente direcionados para carros elétricos novos. Quem procura um usado fica de fora, e isso representa a esmagadora maioria dos compradores portugueses.
A IEA publicou esta semana o relatório "Portugal 2026 Energy Policy Review" e a recomendação é direta: criar apoios financeiros específicos para a compra de veículos elétricos usados, dirigidos sobretudo a famílias de baixos rendimentos, PME e motoristas profissionais. O argumento é que apoiar usados elétricos permitiria acelerar a renovação do parque automóvel nacional, onde os elétricos representam apenas cerca de 6% do total, de forma muito mais eficiente e abrangente do que apoiar apenas veículos novos.
O problema que ninguém resolveu
A próxima fase do Fundo Ambiental está prevista para junho, com 20 milhões de euros disponíveis, e tudo indica que manterá as mesmas regras: carro novo, preço máximo de 38 500 euros, abate de veículo a combustão com mais de 10 anos. Usados, de fora.
O problema desta abordagem é que protege quem já tem capacidade financeira para comprar um carro novo, mesmo que elétrico. Quem não consegue comprometer 30 000 a 40 000 euros numa viatura, e são a maioria, não tem acesso a nenhum apoio para fazer a transição para a mobilidade elétrica.
Há um risco a considerar
A crítica mais óbvia a este tipo de programa é a que os comentadores não tardaram a fazer: os stands aproveitam a existência de subsídios para subir o preço dos usados, anulando parte do benefício para o comprador. É um risco legítimo que qualquer regulamentação teria de endereçar, com tetos de preço e requisitos mínimos de bateria, por exemplo.
Mesmo assim, com os combustíveis nos preços que estão atualmente, o argumento económico para passar para um elétrico nunca foi tão forte. E um elétrico usado de 15 000 euros com um subsídio de 2 000 euros continua a ser muito mais acessível do que qualquer carro novo elegível para os programas atuais.
A proposta está feita. Agora falta perceber se o Governo a vai ouvir antes de junho.
