
A Inteligência Artificial (IA) abre um vasto mundo de possibilidades, não há como negar. No entanto, confesso que me preocupam as proporções que tem tomado e o impacto que tem tido e poderá continuar a ter.
O grande medo comum é a reformulação do mercado de trabalho provocada pela IA, que já vai acontecendo em algumas áreas. No entanto, há outras questões que me preocupam igualmente e acho que nem sempre lhes damos o devido valor.
1. A perda de pensamento crítico e autónomo
São cada vez mais as pessoas que utilizam a IA como "muleta" para analisar criticamente uma situação ou até para formular opiniões. No nosso seio de pessoas conhecidas, todos conhecemos quem fale sempre com o ChatGPT ou o Claude, antes de tomar uma decisão. Se é assim agora, preocupa-me como poderá ser daqui a uns anos, quando tudo estiver ainda mais evoluído.
O que é que isso gera? Um falso sentimento de que há uma ferramenta (artificial), que mesmo não sabendo o contexto completo, tem mais capacidade do que nós para aprovar ou reprovar um pensamento ou atitude. Uma espécie de "juiz" digital, que está presente no nosso dia a dia.
Será que isso não nos torna mais preguiçosos, na hora de decidir e de pensar? Será que não enfraquece a nossa autonomia e confiança naquilo que defendemos? Não se passará com todos, certamente, mas um estudo recente da Anthropic mostra que já é uma tendência, principalmente em questões emocionais.
2. A humanização da IA
Outro ponto que me gera alguma apreensão é sentir que a fronteira entre o que é humano e o que é gerado está a desaparecer: na música, na arte, nas relações, etc.
Já vamos vendo música de IA a ser promovida na rádio, influencers virtuais de IA com milhões de seguidores, apps para companheiros virtuais, vídeos e imagens dúbias que alimentam desinformação com IA.
No seguimento do ponto anterior, há também cada vez mais tendência para ver uma IA como um amigo. Acredito que a IA deve ser um assistente pessoal, só isso. Se dá resposta a necessidades rápidas e pode dar a sensação de acompanhamento? Sim. Se o impacto a médio/longo prazo é bom? Tenho muitas dúvidas.
3. O propósito humano
Este último ponto já é mais hipotético e baseado em suposições do que numa realidade atual. No entanto, não posso deixar de pensar nas declarações de Bill Gates e nas previsões de Elon Musk, que sugerem que, daqui a pouco tempo, o trabalho deixará de ser preciso, pelo menos de forma significativa.
Pode nunca ser um cenário real e que se materialize, obviamente. Mas suponhamos que é, o que não seria assim tão estranho de imaginar. O que é feito do propósito humano? Gostamos de férias, porque sabemos que temos de trabalhar depois. Mas seria bom vivermos permanentemente em férias? Como funcionaria a sociedade, dessa maneira? Funcionaria, sequer?
Há várias formas de encarar o trabalho, mas uma coisa é certa: ele representa sempre um propósito. Seja ele financeiro, de ocupação de tempo, de paixão. Se isso deixar de existir, preocupo-me com as repercussões que isso pudesse ter na vida das pessoas.
