Durante bastante tempo, parecia existir quase uma obrigação de tornar qualquer carro elétrico imediatamente diferente. Frentes fechadas, linhas muito limpas, interiores quase sem botões e ecrãs gigantes passaram a ser praticamente uma assinatura deste tipo de automóvel.
E eu percebo a lógica. Um elétrico é diferente de um carro a combustão e a própria ausência de um motor tradicional dá mais liberdade aos designers. Mas, para mim, essa procura constante pelo “futuro” acabou por tornar muitos carros demasiado parecidos entre si.
É precisamente por isso que gosto tanto do caminho que algumas marcas estão agora a seguir.
Renault 5, Renault 4, Twingo, Volkswagen ID. Buzz ou Citroën 2 CV Concept recuperam elementos de modelos antigos, mas adaptam-nos à tecnologia atual. Até a Peugeot decidiu trazer o RCZ de volta numa interpretação elétrica.
O Renault 5 é provavelmente o melhor exemplo. Não é uma cópia do original, nem devia ser. A Renault recuperou elementos reconhecíveis, como os farolins e detalhes do capô, mas reinterpretou-os. A antiga entrada de ventilação, por exemplo, passou a funcionar como indicador luminoso do nível da bateria.
O novo Twingo segue a mesma lógica. Basta olhar para a frente e para as proporções para perceber de onde veio a inspiração, mas continua a ser um carro pensado para a realidade atual.
É exatamente este tipo de abordagem que, para mim, resulta: não copiar o passado, mas usá-lo para dar personalidade ao futuro.
A história é uma vantagem que ninguém consegue copiar
Esta tendência também aparece numa altura interessante para as marcas europeias.
As fabricantes chinesas estão a ganhar espaço na Europa com elétricos muito competitivos em preço, autonomia, tecnologia e equipamento. Segundo a Reuters, chegaram perto de 11% do mercado europeu no segundo trimestre de 2026.
Mas há uma coisa que não conseguem criar de um dia para o outro: história.
A BYD pode lançar um excelente elétrico, mas não pode inventar décadas de ligação emocional a um Renault 5, a um 2 CV ou a uma Volkswagen Type 2 (Kombi).
E acho que as marcas europeias deviam aproveitar isso mais. Não para viverem agarradas ao passado, mas porque essa identidade é uma vantagem que os novos concorrentes não conseguem simplesmente replicar.Mesmo quem nunca conduziu um destes carros pode reconhecer o nome ou a silhueta. E isso faz com que um modelo novo chegue ao mercado já com alguma personalidade.
No fundo, é tecnologia nova dentro de uma identidade que já conhecemos.
Não basta recuperar o design
O Citroën 2 CV mostra também que esta tendência pode ir além da aparência. O original ficou conhecido pela simplicidade, baixo peso, praticidade e preço acessível. E são precisamente algumas dessas ideias que a Citroën diz querer recuperar.
Para mim, aqui está a diferença entre nostalgia bem usada e nostalgia barata. Se uma marca pegar num nome antigo, colocar dois faróis redondos e lançar um carro caro e pesado, então não percebeu aquilo que tornava o original especial.
Mas se conseguir recuperar também a filosofia do modelo, aí já faz muito mais sentido. Não basta trazer o design de volta. É preciso trazer a ideia de volta.
E isso também vale para o Twingo. O original não era especial apenas pelo aspeto. Era pequeno, simples, diferente e tinha personalidade. Se a nova geração elétrica mantiver esse espírito, então o nome não está apenas a ser reutilizado por nostalgia.
Mesmo assim, nostalgia não chega
Claro que um nome histórico não torna automaticamente um carro bom.
Se tiver pouca autonomia, carregar devagar ou custar demasiado, a nostalgia deixa rapidamente de importar. O design pode chamar a atenção, mas o produto continua a ter de ser competitivo em preço, eficiência e tecnologia.
Também acho que existe um risco se todas as marcas começarem a fazer exatamente a mesma coisa. Se todos os fabricantes começarem a ressuscitar modelos antigos, esta estratégia pode rapidamente deixar de parecer especial.
Mesmo assim, prefiro claramente esta abordagem a elétricos desenhados apenas para parecer futuristas. Um carro pode ter bateria, carregamento rápido, software moderno e continuar a ter personalidade.
E, para mim, é precisamente isso que algumas marcas estão finalmente a perceber: o futuro não precisa de apagar o passado para parecer moderno.