À primeira vista, pode parecer estranho que um relógio inteligente não tenha uma porta USB-C, sobretudo quando praticamente todos os outros dispositivos eletrónicos já adotaram este padrão.
No entanto, basta olhar para o interior de um smartwatch para perceber o motivo. Dentro de uma caixa que, muitas vezes, não ultrapassa os 45 milímetros de diâmetro, os fabricantes têm de encaixar uma bateria, processador, memória, antenas Bluetooth, Wi-Fi e GPS, motor de vibração, altifalante, microfone e ainda sensores capazes de medir a frequência cardíaca, o oxigénio no sangue, a temperatura da pele ou até realizar um eletrocardiograma.
Adicionar uma porta USB-C significaria retirar espaço a algum destes componentes ou aumentar as dimensões do relógio, algo que iria contra aquilo que os consumidores procuram: equipamentos cada vez mais pequenos, leves e confortáveis.
A resistência à água também é uma prioridade
Outro fator decisivo é a resistência. Uma porta USB-C obriga à existência de uma abertura permanente na estrutura do relógio. Mesmo com vedantes de elevada qualidade, essa abertura representa sempre um ponto mais vulnerável à entrada de água, suor, poeiras ou outras partículas.
Ao optarem por contactos magnéticos ou por sistemas de carregamento sem fios, os fabricantes conseguem construir relógios com certificações como IP68 ou 5 ATM, permitindo utilizá-los na piscina, no mar, durante treinos intensos ou simplesmente debaixo de chuva sem preocupações.
Além disso, existem menos componentes sujeitos a desgaste mecânico. Afinal, um conector USB-C seria ligado e desligado centenas ou milhares de vezes ao longo da vida útil do relógio.
A bateria também não exige um carregamento tão potente
Os smartwatches possuem baterias bastante pequenas quando comparadas com as de um smartphone.
Enquanto um telemóvel pode ter uma bateria superior a 5.000 mAh, muitos relógios inteligentes utilizam baterias entre os 300 e os 600 mAh. Há exceções, como o OnePlus Watch 3, que integra uma bateria de 631 mAh e promete até cinco dias de autonomia. Ainda assim, estes dispositivos não necessitam de carregamentos extremamente rápidos, já que o consumo energético é muito inferior ao de um smartphone.
É precisamente por isso que uma simples base magnética acaba por ser suficiente para a maioria das situações. Basta pousar o relógio sobre o carregador e o processo começa automaticamente, sem necessidade de procurar uma porta física ou forçar um conector.
Além disso, a evolução do carregamento sem fios tem permitido tornar estes sistemas cada vez mais rápidos e eficientes, reduzindo ainda mais a necessidade de uma ligação física.
Também existe uma estratégia comercial
Nem tudo se resume à engenharia. Marcas como Apple, Samsung, Garmin ou Huawei utilizam carregadores próprios que ajudam a manter os utilizadores dentro do respetivo ecossistema de acessórios. Embora muitos destes carregadores utilizem um cabo USB-C na outra extremidade, a ligação ao relógio continua a recorrer a um sistema proprietário.
Isto permite controlar melhor a experiência de utilização, garantir o alinhamento correto durante o carregamento e, ao mesmo tempo, incentivar a compra de acessórios oficiais.
Será que um dia veremos smartwatches com USB-C?
É uma possibilidade, mas não parece ser uma prioridade da indústria. Na verdade, a tendência aponta precisamente na direção oposta. À medida que o carregamento sem fios continua a evoluir e os componentes internos ocupam menos espaço, as marcas procuram eliminar cada vez mais aberturas físicas dos seus equipamentos.
Por isso, apesar de o USB-C já ser praticamente universal no mundo da tecnologia, os smartwatches continuam a ser uma exceção. Não porque os fabricantes não consigam integrar esta porta, mas porque o espaço disponível, a resistência à água, a durabilidade e a simplicidade do carregamento magnético continuam a oferecer mais vantagens do que um conector USB-C num dispositivo tão compacto.
