Em Portugal, assinar um contrato de telecomunicações é o mais próximo que temos de um casamento forçado em pleno século XXI.
Entramos na loja com a ilusão de um serviço moderno e saímos de lá com uma algema de 24 meses no pulso.
Enquanto a Europa caminha a passos largos para a flexibilidade e para a liberdade de escolha (como todos nós já reparámos com a entrada da Digi), o mercado português continua ancorado a um modelo pré-histórico que serve apenas um propósito: proteger as operadoras da sua própria incompetência em reter clientes pelo mérito.
Está na hora de o admitir: Portugal tem de acabar com a fidelização obrigatória de dois anos.
O "Mito" da instalação grátis
As operadoras adoram vestir a capa de beneméritas. "Instalação e ativação gratuitas!", anunciam em letras gordas como se fosse um super-poder. Mas vamos parar de ser cínicos... Esses supostos 300 euros ou 400 de custos técnicos não passam de uma narrativa inflacionada, uma camuflagem jurídica desenhada especificamente para prender o consumidor.
Posso neste momento ir à Amazon e ver quanto custa um router 5 vezes melhor do que aquele que uma operadora vai instalar, e posso garantir que sequer aos 100 euros chega. E vão dizer-me que o resto do valor é a instalação?
Se quiseres sair ao fim de um ano porque o serviço falha ou porque encontraste uma tarifa melhor, a operadora apresenta-te a fatura desses custos "oferecidos". Portanto, estamos perante uma chantagem legal que, para a minha "surpresa", afinal não é grátis.
O router e o cabo da fibra não valem ouro, mas o direito de retenção da operadora sim. Nos restantes países europeus, estes custos são mais diluídos, provavelmente de forma justa; em Portugal, são usados como arma: ou ficas, ou pagas.
A minha experiência recente com a NOS
Recebi uma chamada da NOS há pouco tempo, porque a operadora queria saber se estaria interessado em migrar da WOO para a NOS, com um pacote com Fibra e Telemóvel, por um preço de 20 euros. Incrível, achei eu.
No entanto, a conversa ganhou vida própria assim que a assistente começou por me ditar todos os "benefícios" que ganharia ao fazer este contrato. Quando referi que estava, neste momento, a mudar de casa, a assistente da NOS até arregaçou as mangas: "Espera aí, que arranjo aqui um novo cliente e aumento a taxa de conversão". Escusado será dizer que estava apenas iludida e enganada.
Assim que mencionei que estaria a considerar a Digi, o sinal de alerta deve ter soado na sede dos Avengers das telecomunicações, pois começou toda uma cantiga de escarne e mal-dizer sobre a operadora romena — a ponto de me terem dito que a Digi não seria um bom match para mim, pois há muito conteúdo romeno. Vou ligar a RTP e ouvir José Rodrigues dos Santos a apresentar o Telejornal em horário nobre e em romeno, deduzi eu...
A conversa rapidamente ficou um pouco mais pesada. Temas, precisamente como os custos da instalação, as campanhas agressivas da NOS, a conveniente cobertura da WOO onde (quase) apenas existe Digi e a famosa prisão dos 24 meses, surgiram como cogumelos.
Enquanto a operadora argumentava a necessidade destas imposições, eu respondia com a falta de confiança no próprio serviço para ter de prender o consumidor durante 2 anos e o medo que se pela, da Digi.
Esta conversa, como deves calcular, levou-me exatamente a lado nenhum. Não que esperasse algum resultado, mas queria ver até que extremo vão estas campanhas agressivas.
O espelho europeu: Onde a norma é ser livre
Olhar para o resto da Europa é perceber o quão obsoletos estamos. Em vários mercados europeus, o padrão mudou bastnate:
- Contratos mensais ou de curta duração (6 a 12 meses): São a norma, e não uma exceção proibitiva.
- Facilidade de rescisão: Se o cliente muda de casa ou se o serviço não presta, cancela-se. Ponto final (isto também pode acontecer cá, mas há condições muito específicas).
- Concorrência a sério: Sem a garantia de que o cliente está seguro por dois anos, as operadoras europeias têm de lutar pela qualidade do serviço todos os meses.
Por cá, a ANACOM tenta criar regras, mas as operadoras contornam-nas cobrando preços absurdos e proibitivos pelas alternativas sem fidelização. Não há escolhas, e nós somos um país que se dá muito mal com imposições ditatoriais, como prova qualquer livro de história.
A realidade é que se o serviço de uma operadora fosse genuinamente bom, ela não precisaria de um contrato de 24 meses para impedir o cliente de fugir. Eu sou tenho WOO na rede móvel, estou contente (apesar daquele episódio hilariante da net ilimitada limitada), e podia facilmente mudar para a Digi. Não o faço porque estou feliz com o meu serviço — estão a ler isto, grupinho das três operadoras?
Como ser livre (ou quase) no panorama atual
Se recusas submeter-te a este cartel de dois anos, o caminho é estreito, mas existe. Aqui ficam as alternativas para quem quer manter o controlo da sua vida digital:
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Operadoras Low-Cost com regras diferentes: Marcas mais recentes e focadas no digital (como a Digi ou a WOO, Amigo e UZO — pertencentes à NOS, Vodafone e MEO, respetivamente) vieram agitar o mercado com propostas sem fidelização ou com períodos muito mais curtos (3 meses) a preços justos.
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Ofertas Mobile-Only: Esquece o "pacote completo" com 200 canais de televisão que nunca vês. Optar por hotspots 5G ou tarifários móveis com dados ilimitados dá-te a liberdade de levar a tua internet para onde quiseres, sem contratos de fidelização de TV/Fixo.
A fidelização de 24 meses em Portugal não é um modelo de negócio, mas sim um sintoma bem presente de um mercado preguiçoso e hostil ao consumidor. Está na hora de exigir o fim desta tutela.
O consumidor português não precisa de um tutor de duas décadas; precisa de concorrência, qualidade e, acima de tudo, da liberdade de dizer "basta" e mudar de operadora amanhã, se assim bem entender.
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