O iCloud oferece apenas 5 GB de armazenamento gratuito por defeito, um valor que se esgota rapidamente com as fotos, mensagens e dados de qualquer utilizador ativo. Quem quiser mais espaço paga. E quem quiser fazer um backup completo do iPhone ou iPad não tem alternativa: apenas o iCloud tem acesso a essa funcionalidade no iOS e iPadOS. O Google Drive, o OneDrive ou qualquer outro serviço de cloud de terceiros estão excluídos.
É precisamente este bloqueio que está agora na mira das autoridades europeias. A Autoridade Italiana da Concorrência (AGCM) anunciou a abertura de uma investigação com base no artigo 6.º, n.º 7, da Lei dos Mercados Digitais (DMA), que obriga os grandes operadores de plataformas a garantir que serviços de cloud de terceiros beneficiem de interoperabilidade livre e eficaz com os seus sistemas operativos.
Nas palavras da própria autoridade, "a Apple não permite que os serviços concorrentes de armazenamento na nuvem utilizem as funcionalidades do iOS e do iPadOS que permitem realizar um backup completo dos dados dos dispositivos, embora essas mesmas funcionalidades estejam disponíveis no iCloud."
O que pode acontecer a seguir
A AGCM vai partilhar os resultados da investigação com a Comissão Europeia, que determinará se há violação da DMA. A UE já demonstrou que não hesita em punir quando considera que a Apple não cumpre as regras: em abril de 2025, a Apple foi multada em 500 milhões de euros por bloquear informação sobre alternativas de pagamento na App Store.
A multa máxima prevista na DMA é de 10% da receita anual global da empresa, o que no caso da Apple representa dezenas de milhares de milhões de euros.
O precedente mais recente é a Meta, que recebeu uma ordem para reabrir o WhatsApp Business a serviços concorrentes de IA no prazo de cinco dias úteis. Perante a ameaça de multa, acatou.
O padrão que se repete
Bruxelas já forçou a marca a aceitar lojas de aplicações de terceiros no iPhone, a abrir o sistema de pagamentos por aproximação a operadores externos como o PayPal e a abandonar o Lightning pelo USB-C. Em cada caso, a Apple cedeu à pressão regulatória, frequentemente depois de argumentar que as exigências europeias comprometiam a segurança e privacidade dos utilizadores.
O iCloud vai seguir a mesma lógica. A Apple controla o único canal de backup completo num ecossistema com mais de mil milhões de utilizadores ativos. Para Bruxelas, isso é exactamente o tipo de exclusividade que a DMA foi criada para eliminar.
Se a investigação confirmar a violação, os utilizadores de iPhone e iPad na Europa poderão finalmente poder fazer backup completo dos seus dados directamente para o Google Drive ou OneDrive, sem depender do iCloud. Para quem já paga pelo armazenamento de um desses serviços, seria uma mudança prática relevante.
