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O Ferrari Luce não foi o primeiro a gerar polémica. Este foi criticado e hoje é um ícone

Disseram que era demasiado largo, teatral e que não parecia um Ferrari. As ações da marca caíram. Os fãs da marca revoltaram-se. Não estamos a falar do Luce. Estamos a falar do Testarossa. E o que aconteceu a seguir, toda a gente sabe.

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Quando o Ferrari Luce foi revelado, as redes sociais não perderam tempo. "Parece um Nissan Leaf" foi uma das comparações que mais circulou. "Parece um Toyota" foi outra. As ações da Ferrari chegaram a cair 7,8% em Milão no próprio dia da apresentação. Figuras históricas ligadas a Maranello demonstraram desconforto em público.

Cinco lugares, quatro portas, sem motor de combustão, com 1.113 cv distribuídos por quatro motores elétricos, bateria de 122 kWh, autonomia de 530 km e um preço base a rondar os 500 mil euros. O design foi desenvolvido em parceria com o estúdio LoveFrom, liderado por Jony Ive, o homem por trás do design do iPhone.

Na prática, o Luce representa quase tudo aquilo que durante décadas muitos fãs da Ferrari juraram nunca querer ver num Ferrari. A Ferrari já passou por isto antes. E não é a única marca a reinventar ícones para a era elétrica.

1984: quando o "ralador de queijo" quase destruiu a reputação da marca

O Ferrari Testarossa foi apresentado no Salão de Paris de 1984 e a reação esteve longe de ser consensual. Desenhado pela Pininfarina, sob liderança de Leonardo Fioravanti, o modelo nasceu para corrigir limitações do 512 BBi, sobretudo ao nível da refrigeração, do espaço interior e das novas exigências regulamentares em mercados importantes para a marca.

Essas soluções técnicas acabaram por transformar completamente a identidade visual do carro. As enormes entradas de ar laterais, acompanhadas pelas icónicas lâminas horizontais que atravessavam as portas e os guarda-lamas traseiros, tinham uma função prática: alimentar os radiadores laterais e melhorar o arrefecimento do motor. Mas para muitos, aquilo parecia simplesmente um exagero.

A imprensa da época não perdoou. Houve quem apelidasse as entradas de ar de “ralador de queijo”. O Testarossa foi descrito como demasiado largo, demasiado extravagante e demasiado distante da imagem clássica da Ferrari. A crítica mais repetida era simples: “isto não parece um Ferrari”.

A traseira fugia ao estilo tradicional de Maranello e o design parecia mais próximo de um concept futurista do que de um super-desportivo italiano convencional dos anos 80. Ainda assim, foi precisamente essa ousadia que acabou por transformar o Testarossa num dos Ferrari mais reconhecíveis e icónicos de sempre.

A diferença que separa os dois momentos

Há, ainda assim, uma diferença importante entre as duas polémicas. O Testarossa continuava a ser, no fundo, um Ferrari tradicional: dois lugares, motor central-traseiro, doze cilindros, uma postura baixa e agressiva, pensado puramente para performance e emoção. A controvérsia estava sobretudo no design, não na identidade da marca.

Com o Luce, a mudança é muito mais profunda. A polémica não passa apenas pelas linhas exteriores. Passa pelo facto de ser elétrico, ter quatro portas, cinco lugares e abandonar completamente a fórmula clássica da Ferrari. A dúvida que muitos fãs colocam não é “o design é estranho”. É algo muito mais sensível: “isto ainda é um Ferrari?”

E essa é uma questão legítima. Mas a história do Testarossa mostra precisamente como uma rutura pode acabar por definir uma geração inteira.

Quarenta anos depois da estreia em Paris, as famosas lâminas laterais que chegaram a ser comparadas a um ralador de queijo” tornaram-se um dos elementos mais icónicos da história da Ferrari. A família Testarossa vendeu perto de 10 mil unidades, um número invulgar para os padrões de Maranello, e transformou-se num fenómeno cultural global.

Entrou em séries como Miami Vice, apareceu em posters de quarto por todo o mundo e tornou-se um dos Ferrari mais reconhecíveis de sempre. Aquilo que muitos viram como um erro, acabou por definir os anos 80.

A Ferrari apostar em tudo ou perder

A Ferrari passou cinco anos a desenvolver o Luce internamente, incluindo as baterias, os inversores e os próprios motores elétricos. Para isso, construiu até um novo edifício em Maranello, o E-Building, dedicado à produção da nova geração de modelos eletrificados da marca.

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Ferrari Testarossa e Ferrari Luce

As primeiras entregas estão previstas para o início de 2027. Com um preço base de cerca de 500 mil euros, antes de opcionais e personalizações, o Luce nunca foi pensado para o mercado de massas. É, acima de tudo, uma declaração de intenções da Ferrari para o futuro.

O que está em jogo não é vender muitos Luces. É saber se a Ferrari consegue levar a sua identidade para a era elétrica sem a perder no caminho. O Testarossa provou que a marca já sobreviveu a uma rutura que parecia fatal. Se o Luce vai conseguir o mesmo, só daqui a quarenta anos saberemos com certeza.

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Miguel Vieira
Miguel Vieira
Redator no 4gnews com formação em Programação e Multimédia. Cobre tecnologia, gaming e mobilidade elétrica, com presença em eventos como a Web Summit, Lisboa Games Week, ECarShow e SAHE.