Durante anos, o Instagram foi uma aplicação que vivia quase exclusivamente no telemóvel.
Abrimos a app enquanto esperamos pelo metro ou autocarro, durante uma pausa no trabalho ou quando temos alguns minutos livres. É uma experiência rápida, individual e feita para um ecrã que cabe no bolso.
Por isso, quando a Meta anunciou uma versão do Instagram para televisões, a reação mais óbvia foi perguntar: quem é que quer ver Reels numa tv?
Mas quanto mais olho para esta aposta, mais percebo que talvez a pergunta esteja errada.
O que a Meta está realmente a tentar fazer não é levar o Instagram para a televisão. É levar para a televisão aquilo em que o Instagram se transformou nos últimos anos: uma plataforma de vídeo.
A nova aplicação organiza Reels por temas, cria canais personalizados e permite ver conteúdos de forma contínua, sem estar constantemente a pegar no telemóvel para fazer scroll. A experiência foi desenhada para televisores Fire TV e Google TV e inclui até perfis múltiplos para diferentes membros da família.
Na prática, parece menos uma versão gigante do Instagram e mais uma espécie de canal de vídeo alimentado pelo algoritmo da plataforma.
O Instagram já não compete apenas com redes sociais
Há alguns anos, fazia sentido dizer que o Instagram competia com o Snapchat ou com o TikTok.
Hoje a situação é diferente.
Quando alguém passa uma hora seguida a ver vídeos no Instagram, essa hora já não está a competir apenas com outras redes sociais. Está a competir com o YouTube, com serviços de streaming e até com a televisão tradicional.
É precisamente por isso que esta mudança faz sentido.
A Meta percebeu que muitos dos conteúdos mais populares da plataforma já não são fotografias nem publicações de amigos. São vídeos. E alguns desses vídeos já são consumidos de forma muito semelhante a um programa de entretenimento.
A diferença é que, até agora, esse consumo acontecia quase sempre num smartphone.
O verdadeiro teste começa agora
A grande incógnita é perceber se os utilizadores querem transportar esse hábito para o sofá.
O YouTube conseguiu fazê-lo com sucesso. Hoje é uma das aplicações mais utilizadas em televisões inteligentes em todo o mundo. O TikTok tentou aproximar-se desse modelo. Agora é o Instagram que quer um lugar nesse espaço.
A questão não é tecnológica. A aplicação existe, funciona e o conteúdo já está lá.
A questão é comportamental.
Estamos habituados a associar o Instagram a momentos rápidos e individuais. A televisão continua a ser vista, por muitas pessoas, como um espaço para experiências mais longas e partilhadas.
A Meta acredita que essa fronteira está a desaparecer.
E, olhando para a quantidade de vídeos que já consumimos diariamente dentro do Instagram, não tenho a certeza de que esteja errada.
