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Vais comprar uns Ray-Ban Meta? O que deves saber antes de gravar em Portugal

Os Ray-Ban Meta permitem tirar fotografias e gravar vídeos sem tirar o telemóvel do bolso. Mas há regras em Portugal que deves conhecer antes de começares a utilizá-los.

ray ban
Fonte: Meta

Os óculos inteligentes da Meta estão a ganhar cada vez mais funcionalidades. Com uma câmara integrada na armação, permitem tirar fotografias, gravar vídeos e captar momentos do dia a dia sem ter de segurar num telemóvel.

Os Ray-Ban Meta chegaram a Portugal com preços anunciados a partir de 449 euros para os modelos de terceira geração e suporte para português de Portugal.

No entanto, a facilidade com que estes óculos permitem gravar também levanta dúvidas. Podemos filmar outras pessoas na rua? É necessário pedir autorização num restaurante? E podemos publicar os vídeos nas redes sociais?

Em Portugal, não existe uma lei específica que proíba a utilização dos Ray-Ban Meta, mas aplicam-se as regras gerais relativas ao direito à imagem, à privacidade e à gravação de conversas.

Posso gravar com os Ray-Ban Meta na rua?

A resposta depende daquilo que estás a gravar e das circunstâncias em que o fazes. O artigo 79.º do Código Civil protege o direito à imagem, estabelecendo regras para a exposição, reprodução e divulgação de imagens de outras pessoas.

A legislação prevê algumas exceções, nomeadamente quando as pessoas aparecem enquadradas em lugares públicos, acontecimentos de interesse público ou situações que justifiquem a utilização da imagem.

Por exemplo, gravar uma paisagem ou uma rua movimentada, onde várias pessoas aparecem apenas de passagem, é diferente de apontar deliberadamente a câmara para alguém que não quer ser filmado.

O artigo 199.º do Código Penal também prevê consequências para determinadas gravações e fotografias feitas contra a vontade das pessoas. Por isso, estar num espaço público não significa que seja permitido gravar qualquer pessoa sem limitações.

Onde podes gravar e quando deves pedir autorização?

A utilização dos Ray-Ban Meta pode levantar questões diferentes consoante o local. Além da legislação portuguesa, alguns espaços privados abertos ao público podem estabelecer regras próprias sobre fotografias e vídeos.

Eis algumas situações comuns:

  • Ruas e jardins públicos: podes captar imagens gerais do ambiente, mas deves respeitar o direito à imagem e à privacidade das pessoas.
  • Restaurantes e cafés: gravar a própria refeição é diferente de filmar deliberadamente outros clientes ou funcionários. O mais prudente é pedir autorização quando alguém é o foco da gravação.
  • Centros comerciais e lojas: podem existir regras internas que condicionam ou proíbem gravações.
  • Transportes públicos: é importante respeitar a privacidade dos passageiros e verificar as regras do operador.
  • Praias: apesar de serem espaços públicos, continuam a existir limites à captação e divulgação de imagens de outras pessoas.
  • Escolas e hospitais: exigem cuidados acrescidos devido à presença de menores e à possibilidade de captar informações privadas ou sensíveis.

Não existe uma autorização geral que permita gravar livremente em todos estes locais. Cada situação deve ser analisada tendo em conta o contexto e a finalidade da gravação.

Gravar conversas sem autorização pode ser crime

Uma das particularidades dos Ray-Ban Meta é a possibilidade de gravar vídeo e áudio em simultâneo.

No entanto, gravar uma conversa privada sem consentimento pode constituir crime em Portugal, mesmo quando a pessoa que está a gravar participa nessa conversa.

O artigo 199.º do Código Penal abrange a gravação não consentida de palavras de outra pessoa que não sejam destinadas ao público, mesmo quando são dirigidas a quem está a gravar. Isto significa que utilizar os óculos para registar discretamente uma conversa num café, numa reunião ou noutro contexto privado pode ter consequências legais.

Por isso, se pretendes gravar uma conversa, o mais seguro é informar previamente as pessoas envolvidas e pedir autorização.

Posso publicar os vídeos no Instagram ou TikTok?

Gravar um vídeo para guardar no telemóvel e publicá-lo nas redes sociais são situações diferentes.

Quando aparecem pessoas identificáveis, a divulgação das imagens pode envolver o direito à imagem e à privacidade. Dependendo da finalidade, também podem aplicar-se as regras do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD).

O RGPD prevê uma exceção para atividades exclusivamente pessoais ou domésticas, mas isso não significa que qualquer publicação nas redes sociais esteja automaticamente abrangida por essa exceção. Por exemplo, publicar um vídeo de uma pessoa identificável numa situação embaraçosa ou privada, sem autorização, pode originar problemas legais.

A questão das gravações em espaços públicos não é exclusiva destes óculos. Existem também regras importantes sobre quando gravar vídeos na rua pode constituir crime em Portugal, sobretudo quando as imagens são posteriormente divulgadas.

Se pretendes utilizar os Ray-Ban Meta para criar conteúdos profissionais, convém ter cuidados adicionais com as autorizações e com a utilização das imagens de terceiros.

A luz dos Ray-Ban Meta significa que podes gravar?

Os Ray-Ban Meta incluem uma pequena luz LED na parte frontal, que serve para avisar as pessoas à volta quando o equipamento está a tirar fotografias ou a gravar vídeos.

Segundo a explicação oficial da Meta, esta luz pisca durante a captação de fotografias e mantém-se intermitente enquanto decorre uma gravação de vídeo. A fabricante também introduziu mecanismos para impedir a utilização da câmara quando o LED está tapado ou é alvo de determinadas tentativas de manipulação.

Esta proteção ganhou especial importância depois de terem surgido formas de contornar o aviso luminoso. Uma atualização de segurança dos óculos da Meta veio reforçar precisamente este mecanismo.

Ainda assim, a luz LED não substitui o consentimento das pessoas quando este é legalmente necessário. O facto de o equipamento indicar que está a gravar não significa que todas as pessoas presentes tenham autorizado a captação ou divulgação das suas imagens.

Quais são as consequências de gravar sem autorização?

As consequências dependem do contexto e da forma como as imagens ou conversas são captadas e utilizadas. Em determinadas circunstâncias, o artigo 199.º do Código Penal prevê pena de prisão até um ano ou pena de multa até 240 dias para gravações e fotografias ilícitas.

Também podem existir consequências civis, incluindo pedidos de indemnização quando são violados direitos de personalidade. Contudo, nem todas as gravações feitas sem consentimento constituem automaticamente um crime. É necessário avaliar as circunstâncias concretas e as exceções previstas na legislação.

A privacidade dos óculos inteligentes tem sido alvo de discussão na Europa. Em agosto, a Meta enfrentou uma queixa-crime na Alemanha relacionada com os seus óculos inteligentes, precisamente devido às preocupações com a captação de imagens sem consentimento.

O que deves saber antes de comprar uns Ray-Ban Meta?

Os Ray-Ban Meta podem ser úteis para gravar viagens, passeios, atividades desportivas ou conteúdos para redes sociais. No entanto, a possibilidade de captar imagens sem utilizar as mãos exige cuidados adicionais.

Antes de começares a gravar, deves perceber se estás apenas a captar o ambiente à tua volta ou se estás a registar pessoas identificáveis e conversas privadas. Também é importante respeitar as regras dos estabelecimentos e evitar gravações em locais onde exista uma expectativa acrescida de privacidade.

A própria Meta recomenda pedir autorização antes de fotografar ou filmar outras pessoas, bem como evitar a utilização da câmara em espaços sensíveis.

Em Portugal, o que determina a legalidade de uma gravação não é o dispositivo utilizado, mas aquilo que é captado, as circunstâncias e a utilização posterior do conteúdo.

Miguel Vieira
Miguel Vieira
Miguel Vieira é colaborador no 4gnews com formação em Programação e Multimédia. Cobre tecnologia, gaming e mobilidade elétrica, com presença em eventos como a Web Summit, Lisboa Games Week, ECarShow e SAHE.