Imagina que os teus painéis solares estão a produzir bastante eletricidade às 14h00, mas praticamente ninguém está em casa para a utilizar. A casa consome o necessário e o restante é enviado para a rede.
Horas depois, chegas a casa, ligas o forno, televisão, computador ou ar condicionado e, como os painéis já praticamente não produzem, voltas a comprar eletricidade à rede. É precisamente este problema que uma bateria doméstica tenta resolver.
Em vez de deixar sair toda a energia excedente, guarda-a durante algumas horas. Quando o Sol desaparece, o sistema começa a utilizar a eletricidade armazenada antes de voltar a recorrer à rede. Na prática, funciona como uma enorme powerbank para a casa.
O primeiro problema está no preço
As baterias ficaram mais acessíveis, mas continuam a ser uma das partes mais caras de um sistema fotovoltaico.
Atualmente já encontramos baterias de aproximadamente 5 kWh a partir de 2.300 a 3.100 € só em equipamento, enquanto soluções próximas dos 10 kWh aparecem acima dos 4.000 €. Os preços podem ser consultados, por exemplo, em distribuidores de equipamento fotovoltaico.
Depois existe o resto. Dependendo da instalação, podem ser necessários um inversor compatível, sistema de gestão da bateria, proteções elétricas, mão de obra e, caso queiras energia durante um apagão, equipamento adicional de backup.
Como uma referência, a SotySolar apresenta atualmente estes valores para uma das gamas que comercializa:
| Capacidade | Preço apresentado |
|---|---|
| 5 kWh | 4.180 € |
| 10 kWh | 6.410 € |
| 15 kWh | 8.828 € |
Os valores não são uma tabela de preços para todo o mercado e não devem ser entendidos como um orçamento universal. Servem apenas para perceber a dimensão do investimento, que muda bastante entre marcas, instaladores e instalações.
Aliás, antes de pensares na bateria, convém perceber se os próprios painéis fazem sentido para a tua casa. Já fizemos as contas ao investimento em painéis solares.
Uma bateria maior nem sempre é melhor
Aqui é fácil cair num erro: pensar que uma bateria de 15 kWh será automaticamente melhor do que uma de 5 kWh. Não é.
Se durante um dia normal apenas tens 4 kWh de energia solar excedente, uma bateria de 15 kWh dificilmente será totalmente aproveitada. Estarias a pagar por 11 kWh de capacidade que nesse dia não conseguirias sequer carregar.
O mesmo acontece do outro lado. Se guardares 10 kWh durante o dia mas apenas consumires 3 kWh durante a noite, vais acordar com bastante energia ainda armazenada.
Por isso, mais importante do que olhar para o consumo total da casa é descobrir duas coisas:
- Quanta energia solar estás atualmente a enviar para a rede durante o dia;
- Quanta eletricidade compras à rede entre o final da produção solar e a manhã seguinte.
É o cruzamento desses dois valores que ajuda a perceber a capacidade de que realmente precisas.
Para muitas casas, 5 kWh podem fazer mais sentido do que 10 ou 15 kWh, mesmo que a bateria maior pareça inicialmente mais atraente.
E quanto é que podes realmente poupar?
É aqui que as contas começam a ficar interessantes.
Imaginemos uma bateria de 5 kWh e, apenas para este exemplo, uma eficiência global de 90%. Significa que, depois das perdas associadas ao armazenamento, 5 kWh colocados na bateria permitem recuperar aproximadamente 4,5 kWh.
Se cada kWh que deixarias de comprar à rede custar 0,20 €:
4,5 kWh × 0,20 € = 0,90 €
Num dia em que aproveitasses um ciclo completo da bateria, pouparias aproximadamente 90 cêntimos. Mas existe outro pormenor que costuma desaparecer destas contas: essa energia solar podia ter sido vendida.
Em Portugal é possível vender o excedente produzido pelos painéis solares. Se, apenas como exemplo, esses 5 kWh pudessem ser vendidos a 0,05 €/kWh, estarias a abdicar de 0,25 €.
A vantagem efetiva da bateria passaria então a ser:
0,90 € - 0,25 € = 0,65 € por ciclo
É por isso que não basta multiplicar a capacidade da bateria pelo preço da eletricidade.
Agora vamos ao tempo necessário para recuperar o dinheiro
Há ainda outro problema: não vais conseguir fazer 365 ciclos completos todos os anos.
No verão pode existir bastante energia solar disponível, mas durante o inverno haverá dias em que os painéis não produzem excedente suficiente para encher completamente a bateria.
Vamos assumir 250 ciclos completos equivalentes por ano para perceber a diferença.
| Situação | Benefício anual aproximado |
|---|---|
| Sem considerar venda do excedente | 225 € |
| Excedente a 0,05 €/kWh | 163 € |
Pegando novamente nos 4.180 € do exemplo anterior, teríamos teoricamente:
- cerca de 18,6 anos para recuperar o investimento se não atribuirmos qualquer valor ao excedente;
- cerca de 25,6 anos se considerarmos que essa energia poderia ser vendida a 0,05 €/kWh.
Isto não quer dizer que todas as baterias demorem 20 anos a pagar-se. Se comprares uma solução mais barata, pagares mais pela eletricidade, tiveres um grande excedente solar ou conseguires aproveitar mais ciclos por ano, o resultado melhora significativamente. O contrário também é verdade.
E há ainda a degradação da bateria
Tal como acontece num carro elétrico ou smartphone, uma bateria doméstica também perde capacidade com o passar dos anos.
Como referência, a EDP comercializa atualmente baterias domésticas de 5 e 10 kWh com garantia contra defeitos de fabrico de 10 anos e garantia de desempenho de 60% da capacidade ao fim de 10 anos ou após determinada quantidade de energia utilizada. Outras soluções disponibilizadas pela empresa chegam aos 15 anos de garantia.
Isto não significa que a bateria deixe de funcionar ao fim desse período. Significa que não deves fazer as contas assumindo que continuará para sempre com a mesma capacidade do primeiro dia.
Se a estimativa para recuperar o investimento se aproxima ou ultrapassa largamente a garantia, é um sinal de que deves analisar o orçamento com bastante cuidado.
E se não tiveres painéis solares?
Também é possível utilizar determinadas baterias para comprar eletricidade quando está barata e usá-la quando está cara. Por exemplo, numa tarifa bi-horária a bateria pode carregar durante o vazio e reduzir o consumo da rede nos períodos mais caros.
Mas neste caso estás a comprar energia para carregar outra bateria, pelo que a diferença entre os dois preços precisa de ser suficientemente grande para compensar as perdas e o próprio desgaste do equipamento. Esta possibilidade torna-se especialmente interessante com tarifas mais dinâmicas e sistemas que conseguem decidir automaticamente quando carregar e descarregar.
E a questão dos horários vai ganhar importância. A ERSE já aprovou novos períodos horários para 2027, que vão afetar cerca de 500 mil consumidores domésticos com tarifas bi-horárias ou tri-horárias.
Ter bateria também não significa ficar imune a apagões
Esta é provavelmente uma das maiores confusões em torno destes sistemas. Parece lógico pensar: "Se tenho uma bateria cheia, quando faltar a luz continuo a ter eletricidade." Nem sempre.
Por motivos de segurança, muitos sistemas fotovoltaicos desligam-se quando detetam uma falha da rede. Para utilizar a bateria durante um apagão, a instalação tem de estar preparada para funcionar em backup.
A própria EDP explica que, na sua solução, é instalado um quadro específico com tomadas alimentadas pelo sistema para manter equipamentos essenciais como frigorífico, router, computadores ou iluminação.
Ou seja, backup deve ser uma pergunta a fazer ao instalador antes da compra, e não algo que devas assumir que vem incluído.
Afinal, vale a pena?
Se o objetivo for exclusivamente recuperar o dinheiro investido o mais rapidamente possível, a bateria nem sempre será o primeiro investimento a fazer.
Pode valer bastante a pena quando tens painéis solares, produzes muito mais do que consomes durante o dia, recebes pouco pela venda do excedente e compras bastante eletricidade à noite.
Já se trabalhas em casa, consegues concentrar os grandes consumos durante as horas de sol ou quase não tens energia excedente, uma bateria de vários milhares de euros torna-se bastante mais difícil de justificar.
É também por isso que painéis solares e bateria devem ser analisados separadamente. Os painéis podem compensar rapidamente numa determinada casa e isso não significa automaticamente que adicionar uma bateria também compense.
A melhor conta, antes de pedires qualquer orçamento, é perceber quantos kWh estás a enviar diariamente para a rede e quantos voltas a comprar depois de o Sol se pôr. Só depois disso faz sentido decidir se precisas de 5, 10 ou 15 kWh — ou se, para já, não precisas de bateria nenhuma.
