Hacktivismo: o novo tipo de guerra digital que ameaça também a Europa

Rui Bacelar
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O hacktivismo é a nova forma de guerra digital que se está a tornar tendência a nível global, aponta a Check Point Research. Com efeito, a tecnológica dedicada à cibersegurança aponta agora os principais traços que caraterizam o conflito digiral.

São cinco características que marcam a forma atual de hacktivismo, de acordo com os investigadores. Em primeiro lugar a ideologia política, em seguida a hierarquia de liderança, recrutamento formal, ferramentas avançadas, por fim, as Relações Públicas.

Hacktivismo é o novo método de guerra digtial, aponta a Check Point Research

Hackers russos do grupo KILLNET declaram guerra ao Japão. pic.twitter.com/TUDmSqMrPX

— Hugo Borges (@HugoBor73884636) 7 de setembro de 2022

As conclusões são apontadas pela CPR que apresenta o grupo hacktivista Killnet como exemplo do modelo mais recente. É graças ao seu testemunho que vemos, detalhadamente, os seus ataques por país e a sua linha temporal de ataques.

Segundo a mesma fonte, o hacktivismo que tem origem em geografias relacionadas com conflitos tem o potencial de escalar para um nível global.

Este novo modelo de hacktivismo está mais bem organizado, estruturado e sofisticado, em comparação com o passado.

Os grupos hacktivistas já não consistem em poucos indivíduos aleatórios que realizam pequenos ataques DDoS ou defacement em websites de baixo nível. São, com efeito, organizações coordenadas com características distintas, anteriormente invisíveis.

As 5 características chave segundo a CPR

  1. Ideologia política consistente (manifestos e/ou conjuntos de regras)
  2. Hierarquia de liderança (grupos mais pequenos transmitem ordens de ataque a "comandantes")
  3. Processos de recrutamento formais (com base em requisitos mínimos)
  4. Ferramentas que os grupos fornecem aos seus membros (Ferramentas avançadas para a notoriedade)
  5. Funções robustas de Relações Públicas (Presenças nos principais websites)

Porquê agora? Mero oportunismo

A CPR suspeita que a mudança no modelo de hacktivismo começou há cerca de dois anos, com vários grupos hacktivistas como Hackers of Savior, Black Shadow e Moses Staff que se concentraram exclusivamente a atacar Israel.

Esta fonte acredita que a guerra russo-ucraniana aumentou significativamente o novo modelo de hacktivismo.

Por exemplo, o Exército TI da Ucrânia foi publicamente mobilizado pelo governo ucraniano para atacar a Rússia. O

novo hacktivismo também viu grupos que apoiavam a narrativa geopolítica russa, com grupos como Killnet, Xaknet, From Russia with Love (FRwL), NoName057(16), e muito mais.

Estudo de caso: Killnet, de Leste para Oeste

killnet

Em abril deste ano, o grupo mudou completamente o seu foco para apoiar os interesses geopolíticos russos em todo o mundo.

O grupo alegou ter executado mais de 550 ataques, entre finais de fevereiro e setembro. Com efeito, apenas 45 deles foram contra a Ucrânia, menos de 10% do número total de ataques.

Killnet Timeline - eventos de alto perfil

  • Março: o grupo executou um ataque DDoS ao Aeroporto Internacional de Bradley em Connecticut (EUA)
  • Abril: websites pertencentes ao Governo romeno, tais como o Ministério da Defesa, Polícia de Fronteiras, Companhia Nacional de Transportes Ferroviários e um banco comercial, foram tornados inacessíveis durante várias horas.
  • Maio: foram executados ataques maciços de DDOS contra dois grandes países da UE, Alemanha e Itália.
  • Junho: Duas ondas muito significativas de ataques foram executadas contra a Lituânia e a Noruega em resposta a graves desenvolvimentos geopolíticos entre estes países e a Rússia
  • Julho: A Killnet concentrou os seus esforços na Polónia e causou a indisponibilidade de vários websites governamentais.
  • Agosto: Ataques cibernéticos foram implementados em instituições da Letónia, Estónia e EUA
  • Setembro: o grupo visou a Ásia pela primeira vez e concentrou os seus esforços no Japão, devido ao apoio do Japão à Ucrânia

Sergey Shykevich, Threat Intelligence Group Manager da Check Point Software explica, "O hacktivismo tem agora um significado totalmente novo. Antes, o termo significava algumas pessoas que lançavam pequenos ataques DDoS ao acaso.

O hacktivismo já não é apenas uma questão de grupos sociais com agendas fluidas. Agora, o hacktivismo está mais bem organizado, estruturado e mais sofisticado. Creio que tudo mudou no ano passado, especialmente com o início da guerra Ucrânia-Rússia.

Há algumas características chaves que marcam o novo modelo de hacktivismo, incluindo uma ideologia política consistente, hierarquia clara de liderança, processos de recrutamento formal, conjunto de ferramentas sofisticadas e capacidades robustas de relações-públicas.

Embora a mudança tenha começado em regiões geográficas específicas relacionadas com o conflito, espalhou-se agora para oeste e ainda mais longe. Grandes empresas e governos na Europa e nos EUA estão a ser fortemente visados por este tipo emergente de hacktivismo.

Tudo isto permite que os novos grupos de hacktivismo sejam mobilizados para narrativas governamentais e atinjam objetivos estratégicos e de base ampla com níveis de sucesso mais elevados - e um impacto público muito maior - do que nunca".

Killmilk hacker: tudo o que fazemos é apenas para ajudar nosso paísTalvez seja a única coisa que nos torna diferentes. Hoje defendemos a Rússia, hoje somos heróis do nosso país, mas em outros países cometemos crimes”, disse o fundador do hacker KillNet pic.twitter.com/KdJfq4SJEj

— 🇧🇷🇺🇦Paula Danich (@DanichPaula) 23 de setembro de 2022

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Rui Bacelar
Rui Bacelar
Na escrita e comunicação repousa o gosto, nas leis a formação. Ocupa-se com a atualidade tecnológica na 4gnews. Email: ruibacelar@4gnews.pt