
Todos os anos, o ritual repete-se. As grandes marcas sobem ao palco, as luzes apagam-se e somos bombardeados com gráficos de performance astronómicos, câmaras que prometem captar os poros da Lua e processadores ultra-eficientes.
O preço? Esse por vezes ronda os 1000€, o que é tudo menos confortável para a carteira. Mas antes de passar o cartão (ou de o guardar), vale a pena perceber o que estás realmente a comprar.
A diferença já não é o que era
Há cinco ou seis anos, a diferença entre um smartphone de 300€ e um topo de gama era a diferença entre um dispositivo que funcionava e um que encravava a abrir uma app minimamente exigente. Hoje, esse fosso estreitou de forma significativa.
Grande parte dos modelos gama-média já entregam ecrãs AMOLED de 120Hz, câmaras capazes e baterias que chegam ao fim do dia, por 300€ a 400€, ou até menos.
Para quem usa o telemóvel para redes sociais, WhatsApp, e-mail e fotografia casual, a experiência do dia-a-dia é, na maior parte das vezes, indistinguível da de um flagship. No fundo, em tarefas quotidianas, os gama-média modernos não ficam atrás de forma percetível.
Então para que serve um topo de gama?
A questão nunca foi a qualidade dos topos de gama: esses são, sem discussão, máquinas extraordinárias. A questão é se o teu uso justifica o que cobram por isso.
Há três perfis para quem o investimento faz sentido:
Se crias conteúdo profissional. A diferença entre a câmara de um gama-média e a de um topo de gama não se vê numa foto de uma esplanada ao sol. Vê-se em baixa luminosidade, em vídeo 4K com estabilização ótica, em controlo manual de exposição. Se o teu trabalho depende da qualidade de imagem, o flagship paga-se. Se tiras fotos à comida para o Instagram, provavelmente não.
Se jogas a sério. Processadores como o Snapdragon 8 Elite Gen 5 ou o Apple A19 não estão nos gama-média: e em jogos exigentes, a diferença em frames, temperatura e autonomia é real e mensurável. Se jogas durante horas todos os dias, faz diferença. Se jogas Candy Crush nas pausas do trabalho, não.
Se és entusiasta. Há quem simplesmente queira o melhor disponível e isso é perfeitamente legítimo. Câmaras com zoom periscópio, funcionalidades de IA exclusivas, materiais premium. Se tens orçamento e esse prazer é real para ti, não precisas de mais justificação.
O veredito
A esmagadora maioria das pessoas não se enquadra em nenhum destes perfis. O uso real de um telemóvel, para a maior parte do público, resume-se a redes sociais, chamadas, algumas fotos e vídeos, e jogos casuais. Para esse uso, um bom gama-média não te deixa pior servido: deixa-te com 500€ ou 600€ a mais na conta.
Isso não significa que os flagships são inúteis. Significa que são a ferramenta certa para um conjunto específico de utilizadores e que o marketing das marcas faz um trabalho notável a convencer toda a gente de que faz parte desse grupo.
Antes de passares o cartão, a pergunta não é "é bom?". É "é bom para mim?".
