Sempre fui aquele utilizador que não olhava para o lado. Quem já leu os meus artigos de opinião, conhece a minha derradeira preferência pelos antigos Blackberry com BB OS. No entanto, desde a sua saída do mercado, o meu rumo no mundo dos smartphones recaiu naturalmente sobre o iPhone.
Para mim, é um ecossistema que nunca me deu problemas, bastante limpo e sem distrações. O iPhone já por si só é um smartphone fiável e, até há pouco tempo, a experiência justificava o investimento. Sempre tive iPhone, mas este que trago no bolso pode muito bem ser o meu último.
A razão não é porque o hardware tenha ficado subitamente mau — isso não é verdade. O problema é a postura da Apple perante o consumidor. A marca da maçã parece estar a esquecer-se de quem a trouxe até aqui e, ironicamente, está a tornar a minha transição para o Android mais fácil do que nunca.
O cliente "Premium" dentro de uma marca que já é de luxo
A Apple decidiu criar uma divisão de classes dentro do seu próprio ecossistema. Claro que iPhone Pro e Pro Max existem há muito tempo, à semelhança dos Galaxy Ultra da Samsung. Mas agora estamos a ver a marca a introduzir novas funcionalidades nos modelos mais recentes que poderiam, perfeitamente, correr em dispositivos como o iPhone 16 ou o iPhone 17.
Não é uma questão de hardware; é uma questão de marketing, e de empurrar o consumidor para os modelos mais caros sem que haja uma necessidade ou inovação — é da mais pura ganância.
Ao fazer isto, a Apple está a criar um "cliente premium" dentro de uma marca que, por si só, já cobra preços premium. Pagar mais de mil euros por um smartphone já não chega para ter direito às novidades de software? É absurdo.
E mais absurdo é quando olhamos para as "novidades" apresentadas na edição deste ano do WWDC. Serei o único a pensar que nada dali foi exatamente uma novidade? Até vou mais longe e vou dizer que senti que a Apple quis fazer-nos de burros ao reinventar a roda.
"A nossa Siri tem uma app!", "A Apple Intelligence já funciona", "A Siri tem outras vozes", "Agora tem contexto e conhece o teu calendário". Obrigado, Apple! Não sabia que um smartphone tinha a capacidade de ter um assistente virtual que interagisse com o calendário. Os milagres que a Apple faz são dignos de um livro de história.
Não é por acaso que a Apple esteve que responder à justiça por prometer mundos e fundos durante o lançamento do iPhone 16, com um chip preparado para a Apple Intelligence. Todos nós sabemos onde ficaram essas promessas.
E se pensávamos que isto era um problema exclusivo dos smartphones, o ecossistema dos relógios sofre do mesmo mal. O caso do Apple Watch SE 2 é descarado: foi praticamente "roubado" de dois anos de atualizações com desculpas esfarrapadas que não convencem ninguém. Um relógio perfeitamente capaz, descartado apenas para forçar o upgrade.
O "novo" dobrável pode rondar os 2000€: Reinventar a roda com 5 anos de atraso
O cúmulo desta desconexão com a realidade é a mais recente aposta da empresa num telemóvel dobrável. A Apple está a tentar vender o conceito como se estivesse no pico da inovação, mas a verdade é que nada disto é novidade para ninguém.
Não é como se marcas como a Samsung, a Xiaomi e a Motorola não estivessem já neste mercado há algum tempo. A Samsung e outras marcas de topo já dominam a categoria dos dobráveis há anos, com maturidade e provas dadas.
A Apple responde a tudo isto com um dobrável que chega tarde, com inteligência artificial (ênfase no "artificial") que não é assim tão esperta e que não chega para decidir a compra, e com uma Siri 2.0 que pouco muda da Siri tradicional (e que está bem atrás do Gemini ou do ChatGPT).
Mas o pior de tudo é que está a tentar fixar um preço de mercado ridículo para o seu modelo Ultra (dobrável). Visto que a Apple tem sido aquela que influencia os preços no geral, isto não são boas notícias.
Mas infelizmente para a Apple, a sua presunção tem falhas: Os telemóveis Android dos quais a Apple se quer tanto diferencia já não estão assim tão diferentes. Aliás, atrevo-me a dizer que alguns deles estão em pé de igualdade ou até melhores, seja em hardware ou software.
E o principal erro de cálculo que a Apple parece não estar a perceber: No mundo da tecnologia, a lealdade conquista-se e compra-se. Eu sou prova disso.
Vê também:
- Apple prometeu uma Siri inteligente, mas continua a gozar com utilizadores de iPhone.
- Sempre tive iPhone, mas este telemóvel está a questionar a minha lealdade.
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