A LiveMode aterrou no mercado português e está nas bocas de todos por transmitir 34 jogos do Mundial 2026 de Futebol em Portugal, de forma totalmente gratuita, no YouTube. É uma mudança de paradigma num cenário de transmissões desportivas há muito cristalizado no nosso país. Mas para quem tem estado atento, o sucesso desta plataforma não é de agora.
De fenómeno no Brasil à influência de CR7
No Brasil, a LiveMode já é um caso de estudo, já que opera sob o gigantesco nome da CazéTV, criada pelo streamer Casimiro Miguel. A forma como democratizaram e revolucionaram o acesso ao desporto ao vivo no YouTube mudou as regras do jogo (por lá).
Enquanto por cá dá 34 jogos do Campeonato do Mundo, no Brasil a operação é muito mais agressiva, pois transmitem a totalidade dos jogos do Mundial. E não é de agora. A história começou em 2022, com a transmissão de 22 jogos do Mundial do Catar. E o catálogo não se fica por aqui.
A empresa já detém os direitos de competições de peso como a Liga Europa e a Liga Conferência. Além disso, mais recentemente conseguiu os direitos da Liga Liga (de Espanha) até 2032. Também já foi anunciado que irá transmitir a Premier League. Tudo isto de graça no YouTube.
Como se o sucesso não bastasse, o projeto conta com um trunfo de peso na estrutura. Cristiano Ronaldo já é um dos acionistas. É um detalhe que traz robustez financeira, sim, mas principalmente um poder de atração e marketing incalculável, especialmente para a expansão no mercado português.
Um muro chamado Sport TV e o imbróglio com a ERC
Apesar do entusiasmo, o mercado português não é terreno nada fácil para conquistar. O grande domínio da Sport TV arrasta-se há muitos anos. Por um lado criaram-se hábitos de consumo e há uma espécie de blindagem de direitos que dificilmente deixa aparecer concorrência. A DAZN nunca se conseguiu impôr a esse nível.
Além do aspeto comercial, a LiveMode tem tido os seus percalços com a regulação. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) já chamou a atenção para a operação da empresa por cá. Primeiro queria que a LiveMode se registasse como canal de televisão e agora voltou atrás e já só pede que se assuma como plataforma de streaming.
A receita (quase) impossível
Para a LiveMode vingar por cá a sério, "só" tem de fazer uma coisa, que é comprar os direitos da Primeira Liga Portuguesa. Digo "só" com todas as aspas possíveis, porque sabemos que este é um cenário quase impossível no curto prazo.
Os contratos televisivos dos grandes clubes estão amarrados à Sport TV e o mercado nacional dificilmente muda. NOS, Vodafone e MEO (Altice) detêm 75% do capital social da Sport TV. Mas aproxima-se uma tempestade perfeita, que é a centralização dos direitos televisivos.
Quando o bolo for negociado por inteiro, a entrada de um "player" digital com o poder de fogo da LiveMode pode mudar tudo. E se a centralização demorar a dar frutos, a história recente mostra-nos que o monopólio não é inquebrável. É possível fazer diferente:
- O precedente da Benfica TV: ao reter as transmissões dos jogos em casa para o seu próprio canal, o Benfica mostrou que é possível rentabilizar os direitos de forma autónoma;
- O exemplo do Moreirense: na última época, o clube transmitiu os seus jogos na TVI, e mostrou que há alternativas válidas em canal aberto quando as negociações com a operadora do costume falham.
O que se segue?
Até pode ser que a LiveMode não consiga agarrar já a Primeira Liga de forma global. Mas o cenário ideal passaria por vermos alguns clubes da Liga Portuguesa a ganharem coragem e a venderem os seus jogos em casa a esta plataforma.
Em alternativa, a conquista de direitos de outras grandes ligas europeias para transmissão no YouTube em Portugal seria um passo lógico para fidelizar o público luso. O Mundial 2026 está a ser um ótimo teste e, à data de escrita, já tem mais de 600 mil seguidores. Mas para derrotar a Sport TV, o caminho terá de passar pelo futebol nacional. A bola, agora, está do lado deles.
