Huawei usou bots no Twitter para melhorar a sua imagem na Europa

Rui Bacelar
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O Twitter suspendeu um total de 14 perfis que estariam usados para atacar o governo belga. A medida vem na sequência de uma investigação feita pelo grupo Graphika que detetou esta pequena rede de bots operada manualmente com o intuito de criticar o bloqueio da Huawei na Bélgica no contexto das redes 5G e respetiva infraestrutura.

O caso foi exposto hoje (30) pela Graphika e pinta uma triste imagem da fabricante chinesa, apanhada agora com subterfúgios para tentar melhorar a sua imagem na Europa. A "batota" acabou por ter o efeito oposto e o caso pode ter repercussões sérias.

Huawei recorreu ao jogo sujo na Europa através do Twitter

A pequena rede de bots do Twitter (contas falsas ou automatizadas), operavam em sincronia para criar um ambiente de crítica ao plano do governo belga que visa banir a Huawei dos seus esforços para a implementação das redes móveis de quinta geração.

O artifício foi assim desmascarado e expôs as táticas sujas para pressionar o governo da Bélgica. O propósito será convencer os responsáveis belgas da idoneidade da Huawei para o desenvolvimento da infraestruturas de redes 5G nesse país.

De acordo com a investigação, os perfis de Twitter usaram nomes falsos e fizeram-se passar por diversas empresas belgas especializadas em redes 5G. As imagens de perfil terão sido geradas por algoritmos que criam rostos credíveis, mas inexistentes.

Tweets a atacar o governo belga intercalados com elogios à Huawei

Bravo to @mvanhulten for being the spark that started this fire. The big question: what happens now? Will governments/press hold Huawei accountable? Did the Chinese government sanction this? This effort is *way* outside the bounds of normal lobbying.https://t.co/fcOQvelKck

— Matt Habinowski (@MHabinowski) 29 de janeiro de 2021

A investigação - cujas conclusões são do domínio público (documento PDF) - mostra-nos um esquema black-ops para colocar pressão no executivo belga. As contas falsas de Twitter dedicavam-se ao encaminhamento (retweet) de conteúdos de páginas fidedignas e populares, intercalando-os com os seus próprios tweets (publicações no Twitter) onde criticavam o governo belga.

Em causa estava a decisão do governo da Bélgica em banir os fornecedores de "alto risco" da sua rede de telecomunicações nacional de quinta geração. Este era o alvo preferencial dos bots nas suas críticas através do Twitter.

A prática continuada de ataques à decisão belga era intervalada por publicações de elogio à Huawei. Foram vários tweets onde a Huawei era descrita como parceiro de confiança. A fabricante chinesa era sempre engrandecida em diversos tweets.

A rede de bots fundamentava os elogios com artigos patrocinados pela Huawei

As publicações feitas pela rede de bots costumavam fundamentar-se em artigos publicados em diversos websites e blogs da área tecnológica. Contudo, esses mesmos artigos eram frequentemente publicações patrocinadas pela Huawei, publicados em empresas de comunicação raramente registadas, ou com sedes e moradas fictícias.

Essas mesmas publicações, por vezes sem alterar sequer o título, eram encontradas em diversos blogs e pequenas empresas de comunicação, sem grande credibilidade. Em síntese, eram posts patrocinados pela Huawei, semeados com um propósito.

Em seguida, na imagem, vemos alguns dos domínios mais utilizados como fontes para as publicações da rede de bots.

Huawei Bots Twitter
Conteúdo com o mesmo título em três websites distintos e autores diferentes.

Ainda de acordo com a investigação da Graphika, a rede de bots operava de forma inteligentes. Contrariamente às redes que outrora assolavam o Twitter e operavam de forma automática, sendo mais facilmente detetáveis pelos filtros da plataforma, esta não.

Tratava-se de uma rede de contas falsas operadas manualmente. Este foi o ponto-chave que permitiu a sua permanência na plataforma até então, com cada publicação a ser escrita à mão, para cada uma das 14 contas.

Contudo, apesar de a rede de bots ser pequena, o alcance das suas publicações era frequentemente ampliado por outros perfis que, suspeita a Graphika, podem pertencer uma segunda rede de bots.

"Estes (perfis) eram criados em lotes, tendo todos um estilo similar, com imagens de perfil sobretudo com mulheres ocidentais e handles que consistiam em sete letras, seguidas de oito números", apontam os investigadores da agência Graphica.

O subterfúgio da Huawei não passou despercebido no Twitter

As críticas sucessivas ao governo belga, com elogios à Huawei, não passaram despercebidas. Com o tempo, vários funcionários governamentais começaram a reparar no padrão e a denunciar estas mesmas contas ao Twitter.

Por fim, a Graphika não atribui a responsabilidade pela rede de bots à Huawei. Não há uma conclusão definitiva que aponte o dedo à fabricante chinesa. Tampouco associam o controlo desta rede de bots a alguma entidade ou empresa subsidiária da Huawei.

Há ainda muitas questões que carecem de resposta. Por outro lado, a Graphika aponta que vários colaboradores da Huawei na Europa terão partilhado estas mesmas publicações nos seus perfis de Twitter. A razão pelo qual o fizeram não é conhecida.

A Graphika é uma agência de investigação que se debruça sobretudo nas redes sociais e nas publicações online. Desde 2013 que estuda o fenómeno das influências, marketing digital, bem como o estudo da desinformação e a sua análise.

Entretanto, todos os 14 perfis falsos foram removidos do Twitter.

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Rui Bacelar
Rui Bacelar
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