Vou ser direto num ponto que tenho reparado, há anos, desde que uso um smartwatch: uma boa parte das funcionalidades que vês nas fichas técnicas não vai mudar o teu dia a ponto de torná-lo completamente diferente do que já era.
Dezenas de modos de desporto, sensores novos, ecrãs cada vez mais brilhantes... Há um punhado de coisas que decidem se o relógio fica no pulso ou guardamos numa gaveta até um dia ser preciso, e é nelas que vale a pena investir o nosso tempo e dinheiro.
A bateria é o que mais pesa
Na minha opinião, a questão da bateria é um critério que deveria vir primeiro. Os relógios da Apple, Samsung e Google costumam durar entre um e dois dias, por isso carregam-se com frequência. As marcas de desporto, como Garmin, Coros e Polar, aguentam vários dias, e alguns modelos chegam a semanas. Em troca, têm menos funcionalidades inteligentes.
Este é o problema: um relógio que carregas todas as noites não mede o sono, e o sono é uma das métricas mais úteis que ele tem para oferecer. Se a bateria te obriga a escolher entre carregar o relógio e usá-lo de noite, perde-se logo ali parte do interesse.
Antes de tudo, vê se funciona com o teu telemóvel
É um erro simples e caro. O Apple Watch só funciona com iPhone. Os Galaxy Watch e os Pixel Watch são pensados para Android. Os Garmin funcionam com ambos os sistemas. Confirma isto antes de comprar, porque depois não há muito a fazer.
Notificações e chamadas
É a função que mais se usa todos os dias. Isto é, ver mensagens e atender chamadas a partir do teu pulso. A experiência, no entanto, pode variar bastante. Os relógios com watchOS, Wear OS ou sistema próprio da marca deixam-te responder a mensagens.
Muitos modelos de desporto servem sobretudo para ver a notificação, sem grande interação. Se isto é o que mais te interessa, é aqui que estas marcas ganham, tanto nas distrações como na poupança de bateria.
Saúde: útil, mas não exageres
A frequência cardíaca e o registo do sono estão em quase todos os relógios. O valor está em perceber tendências ao longo das semanas, não em olhar para um número solto. Convém lembrar que são estimativas e não medições clínicas. O sensor do relógio é menos preciso em treinos de intervalos intensos do que uma banda no peito.
O ECG e a oximetria (SpO2) funcionam como sinais de alerta e não substituem uma consulta. No entanto, acho sempre agradável poder ter uma noção do que se passa no meu corpo, especialmente quando corro.
Desporto: o GPS é o que faz a diferença
Quem corre, pedala ou nada vai querer GPS integrado, que permite sair sem telemóvel. Alguns modelos trazem GPS de dupla frequência, que tende a ser mais preciso entre prédios altos ou árvores.
Depois há as métricas de treino, como VO2 máx, carga de treino e tempo de recuperação. Aqui a Garmin costuma ter mais profundidade de dados. Nos outros relógios (aqueles mais para o dia a dia), estas métricas são mais básicas. Se praticas desporto, estas funcionalidades podem ter um certo peso na tua decisão.
Resistência à água
A classificação 5 ATM equivale a 50 metros e chega para piscina e mar. Para o duche, convém leres as instruções relativas ao banho: algumas marcas desaconselham o uso com sabonete, água quente ou vapor, porque podem estragar as vedações do relógio com o tempo.
Extras: só se os fores usar
- Pagamentos por aproximação (NFC): práticos, mas dependem do teu banco e da marca do relógio/telemóvel. Confirma a compatibilidade antes.
- Deteção de quedas e SOS: fazem sentido para quem treina sozinho ao ar livre e para pessoas mais velhas.
- Música e mapas offline: só compensam se treinares sem telemóvel.
- Ecrã AMOLED always-on: lê-se melhor ao sol, mas gasta mais bateria.
Então, o que escolher?
A pergunta que interessa é para que queres o relógio. Para notificações, chamadas e integração com o telemóvel, Apple, Samsung e Google são as melhores escolhas.
Já para desporto e autonomia, as marcas especializadas fazem mais sentido, mesmo com um sistema menos completo. Entre os dois grupos há alternativas, como a Huawei ou a Xiaomi, que apostam num equilíbrio entre preço e bateria.
O erro mais comum é comprar o relógio com mais funções. O melhor é o que tem as funções que vais usar e uma bateria em que não dá muito que pensar quando chega a altura de carregar.
Vê também: GPS, bateria e preço: o que muda entre uma smartband e um smartwatch.