Lembro-me perfeitamente da altura em que ter Android era quase uma declaração pública que gritava "eu controlo o meu telemóvel. O meu telemóvel não me controla a mim". Porque ter um Android em vez de um iPhone ou de Blackberry, não era apenas ter um telemóvel.
Era uma atitude contra tudo o que empresas como a Apple representava. Nas palavras de alguém que jura, a pés juntos, que prefere um telemóvel com Android: Apple é só "status" enquanto o Android é pura "liberdade".
Quem tinha Android sabia o que era um launcher. Se calhar, se perguntarmos hoje a um utilizador de, digamos, um Samsung Galaxy S26 Ultra, ele vai gaguejar.
Na altura das primeiras versões de Android, um entusiasta já tinha trocado ícones às três da manhã só porque podia; usava essa funcionalidade como prova da sua supremacia digital e ainda esfregava na cara daqueles cultistas do iPhone toda esta liberdade que eles apenas sonhavam em ter.
Dizia frases como "isto de origem não presta" e instalava uma ROM alternativa, como CyanogenMod, porque podia personalizar a barra de status e gerir as permissões como nunca antes visto.
Seguindo este ponto, para um utilizador de Android personalização era religião. Nem os widgets escapavam, pois eram a decoração oficial do ecrã principal – era Natal todos os dias! Havia orgulho em dizer que o sistema era aberto, flexível e diferente. Longe do que a Apple era.
Depois descemos à realidade.
O que um Android quer
Hoje, uma grande parte dos utilizadores de Android quer exatamente o que antes criticava na Apple. Quer atualizações garantidas durante anos. Quer um sistema limpo e sem distrações. Quer poucas apps pré instaladas. Quer abrir a caixa – e que esta deslize na perfeição para ter o mais perfeito "efeito unboxing" e não ter de desinstalar quinze jogos como "o primeiro passo se comprares este telemóvel". No fundo, quer apenas que funcione tal como lhe foi prometido.
Durante muito tempo, o argumento que segurava esta rivalidade dos Android era que a Apple vende controlo e o Android vende liberdade. Agora a liberdade começa a parecer um extra.
A verdade é que o sistema Android é quase um termo "umbrella": Não basta dizer "eu sou Android". Tens que ser um pouco mais específico do que isso. És One UI? Ou talvez HyperOS? Se calhar MIUI... Isto são interfaces alteradas por fabricantes que acham que sabem melhor do que tu.
O fim de uma era
Digamos a verdade: a era das ROMs personalizadas (the cool stuff) acabou e ficou lá bem atrás, porque hoje o Android não quer saber da tua personalidade. O mundo não parou de girar independentemente do que os titãs originais do Android pensavam ou queriam.
Nos dias de hoje, as empresas como a Samsung, a Xiaomi, a Huawei (e a Apple) querem a mesma coisa: lucro, o melhor software e hardware possível e a tua atenção. e competem e pé de igualdade por todos estes pontos.
Argumentos como "a Apple é para quem pode. A Apple é cara. Só compras a marca" já não pegam. Um iPhone 17 Pro Max custa 1.349 euros. Mas um Samsung Galaxy S26 Ultra tem um modesto preço de 1.499,90 euros. E o sistema? É o nativo da marca. Diz-me lá, onde anda a tua liberdade agora?
No meio disto tudo, o utilizador comum começou a fazer contas e a ter dilemas mentais. Talvez não precise de mexer em tudo. Talvez não queira escolher entre três apps de galeria ou jogar o Candy Crash da Wish que vinha o telemóvel. Talvez prefira menos opções e mais estabilidade. O que é completamente justo... E completamente o que a Apple anda a fazer desde o aparecimento do iPhone.
Os topos de gama Android ficaram mais caros. Mais minimalistas. Mais polidos. Cada vez menos experimentais. As marcas falam de ecossistema com a mesma convicção que antes reservavam para a palavra "personalização".
Relógio, tablet, portátil, auriculares. Tudo a comunicar entre si. Tudo sincronizado. Tudo integrado. De repente, a palavra integração deixou de ser coisa da Apple. Passou a ser requisito básico para qualquer ser humano debaixo deste Sol.
Até os utilizadores mudaram o discurso. Antes era “eu posso mudar tudo”. Agora é “quantos anos de atualizações tem?”. O entusiasta que trocava ROMs hoje quer um suporte oficial prolongado.
O fã da customização já usa o launcher padrão porque dá menos chatices. O defensor do sistema aberto quer, acima de tudo, que as notificações não falhem e que a câmara abra rápido. Para além de bom hardware – isto é uma obrigatoriedade! Sim, porque agora quem usa Android é exigente.
Tão diferentes, mas não iguais
A ironia é doce. Durante anos, parte da comunidade Android gozou com o mundo fechado da Apple, sem se aperceber que, aos poucos, estava a tornar-se naquilo que antes tanto criticava. Hoje olha para esse mesmo mundo fechado e pensa que o clima até é agradável.
No fim, talvez isto não seja sobre Android ficar Apple, mas sim sobre os utilizadores ficarem adultos. Menos tempo para experimentar. Mais vontade de ter algo previsível e estável. Menos debate filosófico sobre liberdade digital. Mais interesse em saber se o telemóvel vai durar cinco anos sem problemas ou falhas.
E no meio disto tudo, o Android continua a ser Android. Só que os seus utilizadores já não são os administradores do sistema, mas o que os utilizadores. O que, convenhamos, é uma ambição perfeitamente razoável.
De um utilizador de iPhone para um utilizador de Android: bem-vindo ao culto.
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