Telegram não é necessariamente mais seguro que o WhatsApp

Rui Bacelar
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Privacidade e segurança. Duas noções geralmente associadas na exposição dada ao WhatsApp, Facebook, Telegram e outras redes sociais, ainda que representem fenómenos distintos. A isto soma-se a noção, vaga, de criptografia ou encriptação de dados.

Assim, perante o êxodo do WhatsApp após o anúncio (a 6 de janeiro) da desastrosa alteração à política de privacidade do grupo Facebook, o Telegram disparou em popularidade capitalizando com a noção de privacidade e segurança nas comunicações.

O "ultimato" do WhatsApp é uma "não notícia" na Europa

WhatsApp Telegram Europa
Excerto do aviso a ser apresentado aos utilizadores do WhatsApp na UE.

Há, contudo, relatos como o da Business Insider que nos avisam para o facto de a plataforma Telegram não ser tão seguro como aparenta. Apesar de ser uma boa plataforma, há áreas onde acaba por ficar atrás do WhatsApp e outras apps de mensagens.

O WhatsApp irá partilhar mais dados com as empresas do grupo Facebook a partir de maio de 2021, fora da União Europeia. É crucial relembrar que na Europa, estes são os dados armazenados, tal como podem ler na sua Política de Privacidade.

Reiteramos que, mesmo com a entrada em vigor da nova política de privacidade do WhatsApp em meados de maio, o "ultimato" não terá lugar na Europa, fruto do RGPD em vigor no espaço comunitário. Dito isto, quão vantajosa é a Telegram como alternativa?

O Telegram não é necessariamente melhor que o WhatsApp

WhatsApp Telegram 4gnews

Sendo perfeitamente compreensível o êxodo do WhatsApp, plataforma que já acumula diversas informações, metadados e outros indicadores que permitem traçar um perfil de utilizador, é normal que se procurem alternativas. Felizmente, temos um mercado livre com várias opções como o Telegram que, de bom grado, acolheram milhões de utilizadores descontentes com o WhatsApp.

Contudo, se vieram para a plataforma Telegram à procura de mais segurança, há algumas considerações que importa ter em mente e dar a conhecer ao leitor. Temática sobre a qual já discorremos, ainda que de modo mais superficial, em ocasião anterior.

1. O WhatsApp tem encriptação de ponta a ponta em todas as comunicações. A Telegram, só no Chat Secreto.

Quer isto dizer que nas conversas normais do WhatsApp, nas chamadas efetuadas através do WhatsApp e até nos grupos de WhatsApp a criptografia de ponta a ponta está ativada. Sem que o utilizador tenha que tomar alguma ação. Está ativa, ponto.

2. A Telegram tem esta mesma criptografia de ponta a ponta disponível caso o utilizador crie um chat secreto.

Isto é válido apenas para as conversas entre duas pessoas, excluindo tal proteção dos grupos com vários participantes, ou canais de Telegram.

Por exclusão de partes, e confrontando as FAQ e política de privacidade do Telegram, vemos que a maioria dos utilizadores pode estar menos seguro nesta plataforma que no WhatsApp, caso procure manter as suas conversas realmente protegidas.

Tal facto é agravado pelo facto de obrigar o utilizador a tomar mais um passo no Telegram, enquanto no WhatsApp nada tem que fazer.

Telegram WhatsApp

Para o utilizador desatento ou casual, o WhatsApp continua a ser a opção mais segura - face ao Telegram.

Adicionalmente, as mensagens não criptografadas - o histórico das conversas - é armazenado nos servidores da Telegram, atualmente sediados nos Emirados Árabes Unidos.

Por outro lado, a empresa russa afirma que, caso sinta alguma pressão ou indício de insegurança, está pronta a mover toda a infraestrutura para nova localização, visando proteger a segurança dos utilizadores.

Não obstante, como já veio a suceder com a plataforma dominante, até o registo deixado nos servidores pelas mensagens encriptadas pode, sob ataque coordenado, ser acedido e utilizado para reconstruir o histórico das conversas.

Serve isto para dizer que, no espaço virtual, não existe um sistema infalível, ou à prova de hackers caso estes concentrem esforços numa empreitada ilícita.

A alternativa mais segura ao WhatsApp é a Signal

Além de colher a preferência da Comissão Europeia e o voto de confiança de Edward Snowden, a Signal é tida como mais segura entre o leque de alternativas. É também o serviço mais respeitador da privacidade do utilizador, ao escusar-se de colher dados e métricas sobre quem a usa. Por isso mesmo, é uma entidade que não busca o lucro, dependendo sobretudo de doações.

Dito isto, também a Signal foi algo de algumas críticas quando teve que entregar todos os dados que tinha sobre alguns utilizadores ao FBI. Portanto, também esta plataforma mantém pelo menos alguns metadados sobre quem a usa.

The FBI came after #Signal, only to find they log only account creation date & last login time. @Google, take note. https://t.co/njyiqCA2i0

— Edward Snowden (@Snowden) 4 de outubro de 2016

A intimação judicial resultou na entrega de dados um tanto parcos. A saber, a data de criação de conta dos dois utilizadores então visados, bem como a data do último login ou início de sessão na plataforma.

Esta foi a extensão dos dados entregues às autoridades uma vez que a plataforma não mantém outros metadados sobre quem a usa - este é o sinónimo de privacidade. Portanto, ao passo que a segurança é sempre um valor relativo, a privacidade é absoluta.

Todas as mensagens trocadas através da Signal são criptografadas. O mesmo se aplica às chamadas feitas através desta alternativa ao WhatsApp, protegidas pela encriptação de ponta a ponta com o seu protocolo, cuja descrição é pública.

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Rui Bacelar
Rui Bacelar
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