
Basta olharmos para o trânsito diário nas estradas portuguesas para notar uma mudança na paisagem automóvel. A chegada de novas marcas chinesas atingiu um ritmo impressionante, cenário que abordámos quando confirmámos que a Geely está a chegar para reforçar a oferta elétrica no nosso país.
O volume de vendas destas fabricantes não para de crescer de mês para mês e o portal Xataka debruçou-se sobre o tema para explicar a verdadeira origem deste fenómeno. A justificação passa um pouco ao lado dos habituais argumentos focados nos preços baixos ou na capacidade de produção em massa dos operários orientais. Mas é fácil de entender e bastante certeira, na minha opinião.
Durante anos a fio, as grandes marcas europeias tinham a ideia de que o Vale do Silício iria dominar a indústria. Acreditava-se que tecnológicas como a Google ou a Apple entrassem no mercado para transformar os veículos em hardware genérico e assumissem o controlo dos lucros através do software de infoentretenimento.
As construtoras europeias gastaram muito dinheiro nas suas próprias plataformas para evitar o chamado "cenário Android" e não se tornarem em meras fábricas de montagem descaracterizadas. O aspeto curioso de toda esta história é que os europeus acabaram por aplicar esse mesmo cenário a si próprios. Hoje assistimos à Stellantis a usar a mesma plataforma base para inúmeras marcas distintas e vemos a partilha constante de mecânicas a acontecer entre a Volkswagen e a Ford.

A "ofensiva" chinesa que chegou aos nossos concessionários segue um caminho oposto e com um impacto muito mais letal. Segundo a análise publicada pelo Xataka, as empresas sediadas em Shenzhen não adotaram o modelo aberto e partilhado da Google, mas acabam por trazer a filosofia vertical e fechada da Apple.
BYD é um grande exemplo de independência
A BYD desenha as suas próprias baterias, programa o seu sistema operativo e detém o controlo prático do ecossistema, o que cria uma fluidez proprietária invejável que detalhámos no ensaio recente ao BYD Atto 3. A Xiaomi, que planeia chegar com os seus carros à Europa em 2027, aplica a mesma receita com o seu sistema HyperOS. Estas empresas preferem gerir integralmente a tua experiência a bordo em vez de dependerem de parcerias com fornecedores de terceiros.
O mercado automóvel está a viver o seu momento iPhone de 2007, segundo a fonte. Tal como o primeiro smartphone da Apple não tinha as melhores especificações técnicas face às marcas estabelecidas na época, os novos modelos chineses podem não ter o apuramento dinâmico da engenharia alemã em estradas de curvas, mas oferecem um nível de coerência digital que as marcas centenárias podem não igualar.
As fabricantes europeias estão finalmente a acordar para o problema estrutural que têm em mãos. Os modelos recém anunciados pelas marcas germânicas de topo mostram uma vontade mais clara de recuperar o terreno perdido na interface de utilizador e no software. No entanto, o erro de focar a margem de lucro apenas no desenvolvimento da mecânica abriu um fosso complicado de fechar.
Enquanto a Europa e os Estados Unidos olhavam uns para os outros com enorme desconfiança, a China construiu um império tecnológico à porta fechada com uma velocidade de execução que as burocracias ocidentais não acompanham. Basta ver as velocidades de carregamento que a BYD já apresenta na China. É esperar que tudo isto possa chegar cá e as fabricantes europeias terão de acompanhar para sobreviver.
