Não é segredo para ninguém que sou um grande fã de minisséries, sobretudo quando há uma história real que a sustenta.
Todas as semanas, nas várias plataformas de streaming, costumo tirar algum tempo para ver pelo menos três produções, sendo que nos últimos dias a fava calhou a "Vladimir" e "O Assassino do TikTok" (Netflix) e "Ângela Diniz" (HBO Max).
Recentemente, tive finalmente a hipótese de ver aquela que é considerada por muitos como a melhor minissérie da HBO Max e considerei que, de facto, é uma produção soberba.
Agora, vou debruçar-me sobre aquela que, para mim, é a grande obra-prima da Netflix. "Aos Olhos da Justiça" ["When They See Us"], uma produção de apenas quatro episódios criada por Ava DuVernay que mexe com qualquer um; é impossível ficar-lhe indiferente.
O enredo
É sobre uma história real de um grupo de cinco adolescentes negros e latinos que em abril 1989 foram acusados de ter agredido e violado Trisha Meili, uma mulher de 28 anos que estava a correr no Central Park de Nova Iorque.
O ataque decorreu por volta das 22h, mas Trisha só foi encontrada pelas autoridades na madrugada seguinte. A agressão foi de tal forma violenta que a deixou em coma durante 12 dias.
Os jovens Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wisecom, com idades entre os 14 e os 16 anos, ficaram conhecidos como os Cinco de Central Park. Sob coação policial e sem advogados presentes (algo ilegal), acabariam por ceder e confessar que eram os autores dos crimes que lhes eram imputados (mesmo não sendo).
A minissérie retrata os eventos daquela trágica noite, o tenso e emotivo julgamento, bem como os muitos anos que passaram na prisão (cada um mais de 10 anos) e a destruição que causou nas vidas e nas famílias dos envolvidos.
Em 2002, o verdadeiro agressor confessou o crime, e o ADN confirmou a sua culpa. Os cinco foram ilibados; mas os irreparáveis danos já estavam feitos.
Em 2003 colocaram um processo contra a cidade de Nova Iorque por acusações maliciosas, discriminação racial e sofrimento emocional. O caos esteve parado durante dez anos, mas em 2013, os cinco viriam a ser indemnizados em perto de 40 milhões de euros.
A minha opinião
Há minisséries que entretêm e há outras que são um marco. E "Aos Olhos da Justiça" pertence inequivocamente à segunda categoria. Ava DuVernay pega numa história real de injustiça e constrói uma obra fenomenal.
O que faz dela algo verdadeiramente especial e único é a forma como recusa tratar os cinco rapazes como símbolos ou como casos judiciais.
São pessoas, com famílias, sonhos e medos concretos; e é essa humanidade que torna cada episódio quase insuportável de ver, no melhor sentido possível.
O quarto episódio, dedicado inteiramente a Korey Wise, o único dos cinco que cumpriu pena numa prisão para adultos, é televisão no seu estado mais elevado.
É difícil (no meu caso foi mesmo impossível) não deixar cair uma lágrima ou outra, não de sentimentalismo fabricado, mas de revolta genuína perante uma injustiça que é impossível de ignorar.
É o tipo de obra que nos obriga a (re)pensar sobre o sistema judicial e sobre os padrões da Justiça, sobre o racismo estrutural e sobre o preço que alguns pagam por crimes que nunca cometeram.
É uma minissérie obrigatória, não sendo descabido considerar que, a par de "Adolescência", também da Netflix, é uma obras mais importantes que a televisão produziu na última década.
O que diz a crítica?
No Rotten Tomatoes, a minissérie segue com 96% de aprovação entre os críticos, bem como o estatuto de Fresh, colocando-a entre as obras mais bem avaliadas da plataforma de streaming.
"Ava DuVernay não se poupa a esforços e descreve os acontecimentos angustiantes vividos pelos Cinco do Central Park e acrescenta uma camada necessária de humanidade à sua história, que desafia os espectadores a reconsiderar o que significa encontrar justiça na América", é a opinião unânime.
"O que o torna tão devastador é o seu retrato implacável de um sistema de justiça criminal que prende, transforma em bodes expiatórios e brutaliza crianças negras e pardas americanas com facilidade e entusiasmo", escreve o New York Times.
"É densa e de ritmo acelerado que examina não só os efeitos do racismo sistémico, mas também os efeitos de todos os tipos de marginalização (embora se possa argumentar que todos têm a mesma causa raiz) em pessoas com o historial dos rapazes", aponta o The Guardian.
