
Quando antigos veteranos da Telltale Games se juntaram para formar a AdHoc Studio, a promessa era evoluir o género da narrativa interativa. Com Dispatch, disponível para a PlayStation 5 e PC na Steam por 34,99 €, cumpriram a promessa e entregaram uma das experiências mais carismáticas do ano.
Podes esquecer o clichê de salvar o mundo aos socos. Aqui, o heroísmo faz-se atrás de uma secretária, a gerir egos, orçamentos e crises de meia-idade de super-heróis falhados. É uma abordagem fresca, cínica e bastante humana ao género. Fomos jogar.
Experiência de Jogo
O herói pode estar atrás da secretária
Em Dispatch, vestes a pele de Robert Robertson (interpretado brilhantemente por Aaron Paul), também conhecido como Mecha Man. Após perderes o teu fato numa batalha desastrosa, és forçado a assumir um papel menos glamoroso: o de dispatcher (operador de central). A tua missão é gerir a "Z-Team", um grupo disfuncional de ex-vilões e heróis de segunda linha que procuram redenção.

A escrita é o ponto mais alto do jogo. O tom oscila perfeitamente entre a comédia de situação (lembra The Office com capas) e o drama pessoal. As interações com a equipa não são apenas superficiais. Tu acabas por ser o terapeuta, o estratega e o chefe deles.
A forma como lidas com as inseguranças de um colega ou com as rivalidades internas afeta diretamente a performance deles no campo. É raro um jogo fazer-te rir alto num momento e deixar-te com um nó na garganta no seguinte, mas Dispatch consegue-o com distinção.

Jogabilidade: estratégia vs história
Se esperas um XCOM de super-heróis, vais ficar desapontado. A mecânica de dispatch, onde olhas para um mapa da cidade e decides quem enviar para resolver assaltos ou resgatar gatos, é funcional, mas simples.
O desafio não está na tática militar, mas sim na gestão de recursos humanos. Envias o herói mais forte, que está exausto e pode falhar, ou o novato inseguro que precisa de moral. Se fores como eu vais falhar muitas vezes.
Estas decisões mecânicas alimentam a narrativa. Se enviares alguém para uma missão para a qual não está preparado, as consequências não são apenas "missão falhada". São conversas difíceis no refeitório e perda de confiança.

O jogo brilha quando te apercebes que a verdadeira jogabilidade é a gestão de relações. No entanto, os segmentos de hacking e alguns eventos rápidos parecem um pouco datados, servindo mais para te manter acordado do que para desafiar o intelecto.
Design e desempenho na PS5
Visualmente, o jogo adota uma estética cel-shaded que remete para a banda desenhada, mas com animações faciais muito superiores ao que estávamos habituados nos jogos antigos da Telltale. Na PS5, o desempenho é imaculado, com tempos de carregamento inexistentes que mantêm o ritmo dos episódios (que agora podes jogar de seguida, ao contrário do lançamento semanal inicial).
O trabalho de som merece destaque. A banda sonora acompanha bem o tom urbano e a dobragem é, sem exagero, de nível cinematográfico. Ouvir o Jeffrey Wright ou a Laura Bailey a discutir sobre quem comeu o último iogurte no frigorífico da base é uma comédia.

Conclusão e para quem é Dispatch
Dispatch não tenta reinventar a roda, mas fá-la girar com mais estilo do que qualquer outro jogo narrativo recente. É um título obrigatório para quem valoriza uma boa história, personagens tridimensionais e diálogos inteligentes acima de tiros certeiros.
Não é um jogo para quem procura ação frenética ou estratégia complexa, mas para quem quer sentir o peso de liderar uma equipa de desajustados, vale cada cêntimo dos 34,99 €. É, muito provavelmente, a melhor "série interativa" que vais jogar na tua PS5 este ano.
Podes comprar Dispatch na Steam para PC e na PS Store para PlayStation 5.
