O que as marcas dizem e o que realmente acontece
Quando a BYD anunciou a sua Super e-Platform, prometia 1000 kW de potência de carregamento, o suficiente para adicionar 400 km de autonomia em apenas 5 minutos. Impressionante, sem dúvida. Mas há um detalhe crucial que raramente aparece nas manchetes: para isso acontecer, tens de estar ligado a um dos poucos carregadores de 1360 kW da marca, instalados na China.
Em Portugal, o mais potente que vais encontrar ronda os 150 a 400 kW. O resultado? Tempos muito diferentes dos prometidos.O mesmo princípio aplica-se a quase todos os fabricantes. A Mercedes promete carregar 300 km de autonomia em 10 minutos com a sua arquitetura de 800V, mas apenas numa estação DC de 320 kW, que ainda é rara na Europa.
A Hyundai garante que o IONIQ 5 vai dos 10% aos 80% em 18 minutos, e nós testámos: num posto de 150 kW, o resultado ficou muito próximo dos 20 minutos. Neste caso, a marca foi honesta.
O problema é a infraestrutura, não só o carro
Há dois fatores que as marcas raramente destacam nos seus materiais de marketing:
- O primeiro é a potência do posto de carregamento. Um carro capaz de aceitar 350 kW só vai carregar nessa velocidade se o posto oferecer essa potência. Na prática, a maioria dos postos em Portugal ainda anda entre os 50 e os 150 kW.
- O segundo é o estado da bateria. Os números das marcas referem-se quase sempre ao intervalo de 10% a 80%. A partir dos 80%, a velocidade de carregamento abranda significativamente para proteger a bateria. Carregar de 0% a 100% demora muito mais do que os números de marketing sugerem.
Autonomia real: o mesmo problema
O tema da autonomia sofre do mesmo mal. Testes independentes realizados nos EUA pela Consumer Reports, em condições de autoestrada a cerca de 112 km/h, revelaram que mais de metade dos elétricos não atinge a autonomia oficial. Os desvios chegam a 50 a 80 km por carga, uma diferença que tem impacto direto no número de paragens numa viagem Porto-Lisboa.
O motivo é simples: os ciclos de homologação WLTP incluem condução urbana e velocidades médias mais baixas. Como já explicámos em detalhe, a autonomia WLTP e a autonomia real são coisas muito diferentes. Em autoestrada a 120 km/h, o consumo sobe e a autonomia cai. Um carro com 500 km de autonomia pode oferecer apenas 320 a 380 km reais em viagem.
Então para que servem estes números?
Servem de referência comparativa, não de promessa absoluta. Quando a BYD diz "5 minutos para 400 km", está a mostrar o potencial da sua tecnologia, não o que vais experimentar no próximo posto de serviço da A1. É marketing legítimo.
O que deves mesmo usar como critério de decisão é a velocidade de carregamento máxima do carro, a disponibilidade de postos compatíveis no teu percurso habitual e os consumos reais em autoestrada em kWh/100km, não os valores oficiais que a marca anuncia.
