Testes independentes realizados nos EUA, pela Consumer Reports, em condições controladas de autoestrada (~112 km/h), revelam um dado crítico: mais de metade dos veículos elétricos não atinge a autonomia oficial definida pela EPA.
As diferenças não são residuais. Em vários casos, os desvios ultrapassam os 50 a 80 km por carga, o que impacta diretamente o número de paragens em viagem.
Modelos de maior dimensão foram os mais penalizados. Pick-ups e berlinas de luxo registaram perdas significativas, confirmando que peso e aerodinâmica continuam a ser fatores determinantes.
BMW destaca-se entre quem surpreende pela positiva
Mas nem todos os resultados são negativos. Algumas marcas destacaram-se por superar, ou pelo menos igualar, os valores oficiais.
Os dados mostram que:
- BMW lidera em consistência, com ganhos médios até +18% face à autonomia anunciada;
- Mercedes-Benz também apresenta resultados acima da média, com desvios positivos relevantes;
- Cadillac surge como caso pontual de overperformance.
Como exemplos concretos temos os BMW i4 e i5, que conseguiram mais 70–80 km do que os valores de referência em testes reais.
Quem fica abaixo do esperado
No extremo oposto, surgem marcas e modelos que não conseguem replicar os números oficiais em autoestrada.
Casos mais evidentes:
- Ford F-150 Lightning: cerca de -80 km face ao anunciado;
- Lucid Air: desvios na ordem dos -60 km;
- Tesla Model S: aproximadamente -40 km em utilização real.
Também marcas como Rivian apresentaram resultados abaixo das expectativas.
O padrão é claro: veículos maiores, mais pesados e menos eficientes aerodinamicamente tendem a sofrer maiores perdas em velocidade constante.
O problema dos números oficiais
A origem destas discrepâncias está nos próprios ciclos de homologação.
Os valores WLTP (na Europa) e EPA (nos EUA): incluem condução urbana; utilizam velocidades médias mais baixas; e decorrem em condições ideais.
Em autoestrada, o cenário muda completamente.
Na prática, um carro com 500 km WLTP pode oferecer apenas 320 a 380 km reais a 120 km/h.
O que isto significa em Portugal
O impacto destes dados é particularmente relevante no contexto nacional, se considerarmos a dependência da autoestrada
Percursos como Lisboa–Porto ou Lisboa–Algarve são feitos maioritariamente a velocidade constante, onde o consumo é mais elevado.
Diferenças de 60–80 km podem significar mais uma paragem obrigatória.
Assim, eficiência = custo, ou seja, o consumo real varia entre:
- 16–18 kWh/100 km (modelos eficientes)
- 20–25 kWh/100 km (SUVs e veículos grandes)
Com eletricidade a ~0,20 €/kWh, isto representa:
- 3,2 a 3,6 €/100 km nos melhores casos
- até 5 €/100 km nos menos eficientes
Os testes reforçam uma conclusão essencial: a autonomia nominal é um indicador incompleto, mais importante que a autonomia é a eficiência. O fator decisivo é o consumo energético.
Dois carros com 500 km WLTP podem ter comportamentos muito diferentes em autoestrada, dependendo da eficiência aerodinâmica, peso e gestão energética.
Uma nova forma de escolher
Os dados revelados pela Consumer Reports apontam para uma mudança no critério de decisão.
Em vez de olhar apenas para a autonomia anunciada, o consumidor deve considerar o desempenho em autoestrada; o consumo real (kWh/100 km); e a consistência face aos valores oficiais.
Em conclusão, estes testes independentes confirmam que a autonomia dos elétricos varia significativamente em condições reais. Há marcas que cumprem — e até superam — o prometido, enquanto outras ficam aquém.
Para o condutor português, a diferença não está no papel, mas na estrada.
